segunda-feira, 7 de maio de 2012

Angústias Amorosas de Nosso Tempo



Se afogando no copo, ele desabafa:

- Cara, ela me cumprimentou com “oi”, deu risada com “hehe” e deu thau com “bjs”. Está tudo perdido.

- Mas e aquele seu post? Pô, puta “like” sedutor. Sério, claramente deu mole.

Ele levanta a cabeça com um sorriso bobo e pergunta, com os olhos marejados de esperança.

- Você acha mesmo?

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Breve relato de uma incrível experiência gastronômica


"Estava ansioso. Ansiosíssimo. “Anxieux”, como dizem os franceses. Foram meses na espera para jantar no mais badalado restaurante do mundo.

O maitrê me recebeu com um sorriso e um pescotapa, bem dado. Fez até barulho. Incrível!

Antes que pudesse expressar minha surpresa me mandaram ficar quieto e comentaram minha careca. Apelidos como “bola de boliche”, “bozo” e “pouca telha” pontuaram a procura pelo meu nome na lista, entre risos maldosos.

Me encaminharam até minha mesa com chutes leves no meu tornozelo, que me faziam trupicar propositalmente. A gentileza de puxar a cadeira foi prontamente substituída por um cuecão do garçom, que confessou tentar colocá-la na minha nuca.

Sentei e levantei em seguida, com um impulso. Tachinha. Joguei fora e me sentei novamente.

Pedi meu prato. Ao alcançar os talheres, um cliente mal encarado chegou na minha mesa. A ordem era clara: ou pagava sua conta ou ele comia o que pedi.

Fui embora com todos apontando e rindo de mim. Antes de entregar o carro, o vallet me chutou a bunda com a chapa do pé. Amassei o papel que colaram nas minhas costas e o estufei delicadamente no lixinho preso ao câmbio.

Meu veredicto?

El Bullying, um restaurante de vanguarda.”







- inspirado por: http://obviousmag.org/archives/2010/03/el_bulli_o_melhor_restaurante_do_mundo_1.html

quinta-feira, 1 de março de 2012

A Aposta

O brasileiro adora uma piadinha. Você sabe, aquela brincadeira marota com o colega. Ninguém é imune a um apelido ou um comentário risonho por nossas terras. E como todo hábito enraizado em um indivíduo, ele começa em casa. A sólida instituição Tio nos prepara desde cedo para a inevitabilidade de um dia ser o alvo de uma zuerinha.

O rito de passagem da infância para adolescência é como lidamos com apelidos que nos incubem. E quando protegido e amplificado pela turma dos amigos, como lidamos com o poder de caçoar alguém. Uma linha tênue que pode ensinar na marra a se defender ou deixar traumas que graduam serial killers.

Do jardim de infância ao fumódromo que invariavelmente mantém um jardim de bitucas, o ato de caçoar o próximo se perpetua. E evoluí entre seus praticantes majoritários: os homens.

Segundo ditados populares, o homem emocionalmente nunca deixa a 5a série. Ele só disfarça que passou de ano na presença do sexo oposto.

No escritório Medeiros e Medeiros Contabilidade estava perfeitamente inserido nesse contexto. E tinha como funcionário e rei o analista sênior Almir. Coroado o soberano das brincadeiras. Sempre um passo a frente nas tiradas, nos apelidos, nas piadas. Com um sorriso de bigode e olhos apertados que sempre antecediam seu próximo ato.

Era um menino preso em uma cabeça já calva e uma chopa protuberante de um cinquentão fã de coraçãozinho bem temperado e cerveja no copo americano.

Com o seu digitar de quem cata milho e separa feijões que irão para a panela, era capaz dos mais constrangedores posts nos perfis de Facebook esquecidos no limbo do log on.

Sua reputação era conhecida por todos os cantos da empresa. Era querido e temido. Engraçado e maldoso. Na corda bamba da vida de um piadista nato.

Até a chegada de um e-mail de boas vindas. E com ele, um concorrente.

Foi Cibele, a RH e secretária, que levou o jovem recém chegado para dar uma volta pela empresa - o já formalizado Tour da Vergonha.

Silas chegou na Medeiros e Medeiros destilando sorrisos e abraços laterais. Mesmo quando seu crachá enroscou com o de seu Carlos, impiedoso e mal humorado sócio-diretor financeiro, o recém-chegado mostrou jogo de cintura e nem sequer corou. Até arrancou uma risada da Regina, que vivia triste por um ex-namorado que a trocou por sua manicure.

Ele estava tranquilo. “Tranquilo demais...”, farejou Almir.

Era hora de testar do que esse nariz que vestia uma camisa social era capaz.

Almir consultou seu vasto repertório e decidiu aplicar uma das suas clássicas. A infalível. O convidou para ir ao cartório. Perfeita para o novato, sempre solícito, contagiado pela vontade de mostrar serviço e conquistar a confiança dos colegas.

Com as sobrancelhas arqueadas em dúvida, Silas respondeu.

- Err... Mas fazer o quê no cartório?

Com um meio sorriso, Almir tomou ar para arrematar a piada e mostrar para todo departamento quem mandava. Mas antes que de seus lábios saíssem a resposta, Silas emendou, em seguida:

- Passar o seu cu pro meu nome?

Almir ficou sem reação. Paralisado, tentando encontrar palavras enquanto as baias sacudiam em gargalhadas. Era um riso recheado de surpresa e satisfação. Uma grata surpresa. Uma lenda tinha sido atingida. Nunca na história da Medeiros e Medeiros alguém tinha conseguido calar o profissional Almir em uma piada.

Silas sabia. Ou ele previu a piada e conseguiu rebatê-lo? Seja qual fosse a resposta. Ele era rápido e afiado na resposta.

O rei tinha encontrado um monarca à altura.

As semanas seguintes foram marcadas por intensas batalhas. Piadas, comentários irônicos, apelidos com dimunitivos, e-mails falsos. Os dois concorrentes perdiam o sono e a produtividade pensando em novas maneiras de dar a última piada.

Mas Almir desde o começo sabia a verdade. O mundo imaturo da contabilidade era pequeno demais para eles dois.

Resolveriam suas diferenças com um desafio. Um duelo.

Os termos da disputa foram acordados na presença de Cibele, que juramentou seu testemunho com um pesar. E um lado para torcer.

Quem ficasse uma semana falando com o mal-humorado e poderoso seu Carlos usando voz fofa de namorada ganhava um prêmio: a demissão do outro. 5 dias úteis apresentando relatórios, ligando no ramal, pedindo contratos e batendo contas usando apelidos como “tchutchuco”, “lindet” e “gordinho do pai” para a pessoa com a autoridade de demiti-lo em uma canetada.

No começo era um apelido tímido ali, com um sorriso amarelo em seguida. Mas a disputa ficou acirrada. E os concorrentes começaram a pegar pesado.

- Alô? Seu Carlos? Oi tchutchuquinho... Quando o senhor puder, vamos bater aquelas notas fiscais de abril? Obrigado viu, meu gordinho.

- Bom dia. Bela gravata, seu Carlos. Belo terno, belo tudo. Dia dos namorados está logo aí... Assim você dificulta minha vida, seu lindo.

- E para resumir, como vocês podem ver, os números indicam uma evolução de 12% em relação ao ano passado. Alguma dúvida? Sim, meu pequerrucho, pode perguntar.

Era o final de expediente de uma segunda-feira chuvosa quando a secretária Cibele anunciou o inevitável. Dias de tantas frases e apelidos de carinho inevitavelmente daria um resultado. Restava saber o veredicto.

- O senhor Carlos quer falar com os dois. É pra ir na sala de reunião.

Os dois caminharam lado a lado pelo corredor, rumo ao fim. Olhares apreensivos acompanhavam por cima das baias os gladiadores das piadas infantis.

Antes mesmo de baterem à porta, seu Carlos já os mandou entrar.

Perplexidade pouco define a expressão que tomava o rosto dos dois ao abrir a porta.

A sala estava a meia luz, com velas roliças vermelhas completando a ambientação. Uma toalha branca de linho cobria a mesa retangular da sala. O prosseco suava em um balde de gelo prateado. A voz macia e levemente rouca de Sade cantava “smooth operator”, que prenchia a sala de sedução.

Era dia 12 de junho.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Um Conto de Natal

Nos corredores do CDPN (Centro de Distribuição do Pólo Norte), um duende caminha entre aflito e apressado. O ansioso serviçal costura pelas baias em passadas rápidas, desvia de carrinhos com papeladas misturando “boa noite” com “licença”.


É dezembro, véspera de entregas da maior e mais complexa operação logística da face da terra. O imponente escritório é um caldeirão de carimbos, memorandos e toques de telefones incessantes.


O esforçado pequenino leva em suas luvas brancas um papel timbrado, ainda com as cicatrizes de um puxão do caderno.


Ao parar na porta feita de um carvalho maciço e envernizado, o duende inspira longamente.


- Entre.


Uma voz grossa e rouca vem de dentro do escritório, antes mesmo que ele esboçasse dar três toques na porta.


Atrás da sua larga mesa retangular, com um tampo de mármore repleto de latas vazias de energético e canecas de café, o atarefado velhinho revisa as rotas de entregas. O rosado de suas bochechas se acinzenta com o escuro fundo de suas olheiras.


Contorce o cigarro – Derby vermelho, sem filtro - no abarrotado cinzeiro e acompanha a entrada do seu subordinado no recinto. O estressado velhinho só ergue os olhos do papel, deixando-os logo acima do óculos que se equilibra na ponta do seu nariz.


Com um suspiro impaciente, pergunta.


- O que foi agora, Joel?


- Senhor... Tenho algo muito importante comigo. Uma carta.


Papai Noel balança a cabeça negativamente, ainda olhando para baixo. Inclina suas costas na cadeira e fixa com firmeza seus olhos azulados no duende parado a sua frente.


- Uma carta? Você realmente se superou dessa vez, Joel. Eu tenho um departamento inteiro para ler e protocolar cartas e você vem me trazer uma carta?? Eu lidero uma operação que atravessa em uma noite mais de 5 continentes e você acha -


- Senhor. – O corajoso duende interrompe. – Eu entendo. Mas você realmente precisa ler essa carta.


- Não me diga que você agora se deu por sentimental. O mundo mudou. A concorrência está aí. Amazon, Sedex10, Fedex. Ou você acha que eu tenho bala para investir em um filme sobre náufrago? Eu entrego a bola de vôlei, não faço dela o Oscar de ator coadjuvante. Você sabe disso. O Departamento de Correspondência executa há anos essa função e vai muito bem, obrigado.


- Mas o seu conteúdo, entra na Lista. A sua Lista, que você entrega pessoalmente, sem usar os sósias de shopping.


O Papai Noel suspira sua indiferença com um suspiro.


- Há muito tempo que algo não entra na Lista. Tudo que chegam são pedidos pelo lançamento da moda, que é logo substituído por uma manha bem feita e a liquidação de janeiro. Rasgar o meu embrulho perdeu o charme faz tempo. Não vale o esforço. E você sabe muito bem disso.


- Mas essa é diferente. Por favor, leia.


O rosa das bochechas viraram vermelho de cólera.


- Puta que pariu! O que deu em você, Joel? Você sempre foi meu ajudante mais eficiente. Pedido por Paz Mundial? Por um irmãozinho? Por brinquedos para o orfanato inteiro? Nada disso cola mais, rapaz. Aceite a realidade. Agora chispa daqui. Eu e você temos uma frota de trenós para administrar.


- Está bem senhor. Desculpa tomar seu tempo. Vou voltar às minhas tarefas.


Cabisbaixo, Joel sai da sala.


Papai Noel tira seu maço da gaveta e acende um cigarro com seu Zippo com o desenho de um pinheiro natalino. Fecha a gaveta com uma pancada.


Fica parado com as botas na mesa, olhando pensativo para o isqueiro que ganhou no último amigo secreto do CDPN. Depois de minutos de reflexão, ele a vê. Presa sob o cinzeiro, a fatídica carta. Estica seus dedos roliços com um resmungo de “esse Joel...” e desdobra o papel.


“Oi Papai Noel, tudo bão?


Tenho um pouco de vergonha de escrever isso pro senhor. Já to velho pra essas coisas.


Escrevo por que esses dias, a mulher. Não, sogra do meu amigo. A moça do rapaz que trabalha comigo foi sair com meu carro e deu de ré. Aí já viu. Ela tava novinha. Amassou tudo. Uma desgraça só. É uma Belina álcool, 4 x 4, verde. Placa MBE – 4785. Passou a praça, do lado do abacateiro. Não coloco na sombra por que esses abacate fazem um estrago que só.


Se o senhor puder me dar a funilaria de presente eu ficaria muito agradecido. Muito mesmo.


Obrigado e desculpa qualquer coisa,


Jurandir.”


Da sua mesa, o bom velhinho interfona.


- Joel, prepare o meu trenó.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Desculpas Esfarrapadas de Primeiro Grau



Gostaria de te apresentar ao Alberto. Para os caras do futebol de terça, o Betão. Para as colegas de trabalho, o Albie.


Mas fiquemos com Alberto, mais neutro.


O que aconteceu com Alberto foge de toda compreensão humana. Quebra paradigmas. Coloca em cheque nossa noção de evolução.


Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?


Era sexta-feira, 20 horas, 17 minutos e 21 segundos quando nosso herói quarentão recebeu o convite de 3 amigos para beber uma cerveja.


“Vamo lá, cara... Só dois chopinhos, pra afrouxar a gravata”


Relutante mas ciente que concordaria no fim, de imediato o gentil Alberto recusou o convite. A patroa era brava e mestre na arte de guardar erros por anos a fio, com o talento impar de usá-lo para nocautear uma discussão.

Mas os colegas insistiam, descrevendo o sabor refrescante de um chopp gelado e de espuma cremosa. Salivando, Alberto tentou fazê-los entenderem seu lado.


Explicou das ordens explícitas de estar cedo em casa. Que sábado tinham que fazer orçamentos em duas Telhanorte, a tempo de chegar no almoço da sogra com a massa que encomendaram na rotisserie.


“Obrigado moçada, fica pra próxima.”


Era sábado, 11 horas, 32 minutos e 01 segundos quando Alberto tentou pular o portão da sua casa. Visivelmente bêbado, equilibrando-se com uma perna em cada lado de sua propriedade.

Após incríveis 20 segundos mantendo seu corpo como um pêndulo, caiu como um peso morto para o lado de dentro. Temendo estar sendo observado, levantou-se com a agilidade de um ninja grávido de 9 meses.


Caminhou sorrateiro para a entrada, sondando o perímetro com o canto de sua vista.

Ao alcançar a maçaneta, sua mão abriu o vácuo. Demoraram alguns segundos para ele entender quem tinha feito a gentileza de lhe abrir a porta.


- Eu quero uma resposta. E quero uma bem dada. Por isso, Alberto, pense bem antes de me responder. Onde DIABOS você estava?

Alberto respirou fundo. E com a mesma profundidade, olhou nos olhos de sua mulher e respondeu, entre seco e sério.


- Acho melhor você sentar.


Alberto subitamente ficou sóbrio. Como que se a lembrança do acontecido fizesse toda bebedeira ir embora. Naquele momento, sua única missão no mundo era contar o que aconteceu. Pouco importavam as consequências, o espanto que causaria.


O mundo precisava saber a verdade.


Agachou em frente a uma já impaciente esposa e disse, arregalando os olhos:


- Você não vai acreditar. Eu fui abduzido.





sexta-feira, 15 de julho de 2011

Guerra Fria


Caio terminou com Marininha. Ou foi a Marininha que terminou com o Caio? Não sei. Os detalhes não vem ao caso, mas segundo consta, foi um término até que amistoso. De certa forma, veio como um alívio.


Aconteceu que o amor já estava como uma fogueira de final de acampamento. Minguante como a lua da noite que eles ficaram pela primeira vez, no bafo quente de um verão praiano há 2 anos atrás.


E tal sentimento os levou a um consenso doloroso para ambos. Melhor do que um término por um chifre ou uma briga de pratos e corações partidos.


Com um nó no peito por estarem reconhecendo o final de algo especial, sentaram num banco e decidiram em comum acordo selar o fim das risadas entre camadas de edredom.


Se despediram com um abraço apertado, que trouxe com ele uma rápida edição de momentos passíveis de suspiro. E depois dos letreiros, foram se deitar nos mesmos lençóis, agora acompanhados somente de lembranças confusas e pensamentos de “segue o barco.”


E os dias de fato se seguiram, com cada parte do ex-casal ainda tateando seu caminho entre long necks e flashes de balada.


Estavam treinando a se acostumar com a ausência de boa parte de seus pensamentos e telefonemas. E indo muito bem, obrigado.


Até ligarem o computador.


Eis que o mundo mágico do template azul revela para os olhos de um sonolento Caio uma foto. Sua ex, exalando sensualidade enquanto laçava um pilar com uma perna, com os olhos brilhando por prováveis shots de tequila.


Em um assustado reflexo, fechou a página.


Em questão de segundos, abriu de novo.


Passou o fim de semana e lá estava o antes discreto Caio marcando presença no Facebook, com a camisa aberta e os olhos em farol baixo. No rosto, o mais malandro dos sorrisos. Em cada bochecha, um feminino beijo estalado.


O telefonema de uma amiga descreveu em detalhes a solteirice da imagem para Marininha, que imaginou até a estampa da camisa em vingativo silêncio.


A resposta veio como um míssel intercontinental. O álbum “Feriadoooo”, cuja capa era um pôr do sol e três sombras de meninas pulando em sincronia. Drinks coloridos, marcas de biquíni e legendas maliciosas para fotos de rapazes sem camisa torturaram um enciumado Caio, que entre dentes jurou sua retaliação.


E assim os dias viraram meses, entre fotos e frases de duplo sentido pelas redes sociais. Resistir ao clique era impossível, e a cada novo post o recado era marcado pela angustiante dúvida dele ser de fato um recado.


Tudo era analisado. Da música do dia à frase de MSN, passando pelas interações que o mural do Facebook inevitavelmente trazia aos seus olhos curiosos. Em qualquer ponto de contato poderia estar um possível “olha o que você perdeu” de teor acumulativo, lançado à livre interpretação de cada parte antes envolvida com um título de namoro.


Mas muito mais do que qualquer foto ou novo status de relacionamento, o que mais doeu foi o silêncio.


Passaram alguns meses para os bem acompanhados registros de Marininha curtindo a vida simplesmente pararem de aparecer. Nenhum recado por páginas alheias, nenhuma foto, nada.


Será que ela tinha encontrado alguém? Percebido que o álbum de viagem inesquecível é o que você leva na memória? Que o melhor recado é o que você escreve num cartão de presente?


Para Caio, tantas perguntas tinham uma só resposta.


Era preferível vê-la dividindo baldes de caipirinha do que dividindo a vontade de se ver depois de um dia longo.


A dúvida ditava o ritmo que atualizava suas páginas. Até que o acaso, sempre ele, fez o favor de lhe dar a certeza em uma mesa de bar.


E no vazio da sua caixa de entrada, Caio reconheceu que entre todas as fotos, frases e filmes que enviou para o mundo de pixels e telas azuis, o que sempre lhe faltou foi uma única palavra.


Saudade.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Primeiro Encontro


E lá estava Renato. Sentado na mesa de toalha quadriculada em branco e vermelho. Beberica uma taça de vinho, de olho na porta de molduras paralelas de vidro. Batuca sua ansiedade no crostini que repousa na cestinha a sua frente, usando sticks de pão como baquetas.

Já se passaram trinta minutos desde o combinado.

Com o sininho preso ao batente, Letícia entra. Ele levanta com um meio sorriso, cumprimentando com um beijo estalado na bochecha.

- Oi… Começou bem, hein? Você se atrasou para cacete.

- Desculpa, eu não sabia que roupa usar…

Silêncio. Constrangimento mútuo. Ela continua, não contendo a empolgação:

- Também, depois da farra que foi minha viagem no feriado, todas as roupas boas estão lavando. Ai foi essa velha mesmo.

E sem perder a compostura, ele responde de bate-pronto.

- Puxa, fico feliz com sua preocupação.

- Ah, na boa. Primeiro encontro às cegas é complicado. Quando perguntei para a Marininha como você era, ela respondeu “ah, muito gente boa”. Achei que não valia muito o esforço.

Renato arqueou as sobrancelhas. E a olhando de cima para baixo, sentenciou.

- É, confesso que também esperava mais de você.

- Que bom que concordamos com isso.

O garçom se aproxima do casal.

- Aceita vinho, senhorita?

- Sim, claro.

E com um sorriso irônico, ela completa:

- Um brinde à sinceridade.

- Um brinde!

Seguido do tim tim, o silêncio. Chegou a hora de falar algo legal, para quebrar o gelo. Só foi patada até agora. Renato pensa em um elogio antes de pensar um prato.

Então, com seu mais simpático sorriso, Letícia arrisca:

- E que lugarzinho hein? Só falta você tirar do bolso um vale de site de Compras Coletivas.

- Quem dera se tivesse um desses. Pelo menos economizaria e a noite não estaria perdida. Bom, pelo menos acertei em não olhar a gaveta e colocar minha boa e velha Zorba clássica, dessas com um bolsinho mucho na frente.

- Ah, você também? Se você visse o estou usando… É de um caramelo claro, total terceira idade. Parece que roubei um coador de café que por algum motivo estava pendurado num box de plástico fumê.

Renato não se deixa impressionar. E responde de imediato:

- Isso eu imaginava mesmo. Não quero nem pensar na mata atlântica que esse coador esconde.

- Mata atlântica não por que ela já foi bem devastada, tadinha. Está mais para Amazônia mesmo. Normalmente faço isso para me segurar e não dar logo de cara. Mas com o promissor cenário de você ser exclusivamente “muito gente boa” vi que não valia a sessão de tortura.

- Bom, não adiantou muito. Acabamos trocando uma sessão de tortura por outra. Vale até mais um brinde.

- Claro que vale!

E com a segunda edição do tim tim, Letícia só pensa em uma coisa:

“Que surpresa boa. Ele bem que podia me chamar para sair de novo. Nunca vi homem mais charmoso…”

Renato observa ela enrolar o talharim no garfo, deixando o narrador da sua vida falar por ele.

“Caramba… Com esse jeitinho arisca não tem calcinha de vó no mundo que atrapalhe. Ela é uma graça.”

Acabaram por comer suas massas e pagarem a conta, acertando em comum acordo que Zorra Total era bem mais interessante que aquele jantar.

Afinal, isso não é coisa que se fala num primeiro encontro, não é mesmo?