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segunda-feira, 4 de abril de 2011

The Royal Wedding



Uma cena de um conto de fadas moderno toma as ruas de Londres. Aviões rasgam o céu que emoldura a torre do Big Ben, deixando para trás um rastro de fumaça colorida. Pelas ruas, milhares de súditos emocionados sacodem bandeirinhas do Reino Unido, sob uma chuva de papel picado.


Imóveis e perfilados, soldados trajando fardas vermelhas com o legítimo black power inglês e reluzentes mosquetões abrem caminho para o que vem chegando. Lá vem ela, exuberante em uma carruagem digna de ter sido fabricada de uma abóbora. Toda de branco, acenando para o mundo o anular que muito em breve receberá o mais cobiçado dos bambolês dourados.


É o chamado “casamento do século”, que movimentará bilhões de libras e alimentará sonhos de menininhas e consultórios pelo mundo afora com revistas de fofoca.


Mas antes que este tão aguardado dia chegue, algo pode acontecer. Um único diálogo com o poder de mudar para sempre o destino da realeza britânica e de toda bilionária tietagem que cerca a cerimônia.


Neste instante você encontra um tranquilo Príncipe William, muito bem acomodado em seu roupão de cetim por uma das salas do Palácio de Buckingham. Segura uma taça de vinho, fazendo movimentos circulares com a mão para fazer as notas da rara safra se expressarem melhor na sua língua.


Ao olhar pela porta, esboça se levantar da poltrona. Mas substitui o movimento por um largo sorriso.


- Olá, meu bem.

É ela: Kate Middleton, a futura rainha, trajando um confortável moleton do C.A da sua faculdade. Nas mãos, segura um calhamaço de papéis grampeados.

- Oi... – Senta no braço da poltrona e estala um beijo na sua bochecha rosada. E imenda, seca. – Precisamos rever a lista de convidados.


O príncipe olha para cima, num claro gesto de impaciência. Ia começar tudo de novo. Os nomes na berlinda já estavam destacados pela mais clássica das cores de caneta grifa-texto.


- Casal Obama. Você nunca trocou mais que um aperto de mão com eles, William. Não tem por que convidá-los.


O príncipe suspira.


- São amigos de papai, Kate. Não tem como deixar de chamá-los.


- Está bem, esses passam.


Sua voz começa a ganhar um tom agressivo. E continua:


- Mas esse tarado do Berlusconi não passa nem pela porta. Imagine só a cena? Vai xavecar todas as convidadas, aquele vexame terrível.


Impassível, o príncipe responde.


- Silvio Berlusconi vai ao casamento.


Kate se levanta como quem acaba de se sentar numa tachinha.


- Você quer que o nosso casamento seja um vexame? É isso? Quer que sua avó tome um beliscão na bunda? Que a madrinha escute um “ô lá em casa” macarrônico?


William respira fundo.


- Já tomamos as providências para ele se comportar. Ele chegará na festa bem cansado, fique tranquila.


- Pois eu não estou tranquila!


Um a um, Kate foi riscando seus motivos para tirar convidados da lista.


- Sarkozy? Capaz de Carla Bruni ir de branco e véu, só para roubar a cena.


- Angela Merkel? Quero páreo justo na briga pelo buquê.


- Luis Inácio da Silva? Bebidas destiladas dos trópicos não serão servidas nem por um decreto da rainha, sua Majestade, minha sogra-vó.


A teimosia fez William perder sua paciência real. Lentamente, colocou a taça na mesa de centro com orelhas quentes.


- Kate, muita coisa está em jogo nesse casamento. Somos pessoas públicas, representamos uma nação. Esses convidados são parte de nossa diplomacia, da nossa política internacional. Como é tão difícil para você entender isso?


A resposta veio de bate pronto:


- Como é difícil você entender que não vai ninguém querido para mim? Esse casamento é de todo mundo, menos nosso.


E a raiva desatou em choro. Se sentindo um traste, William puxou sua noiva ao encontro do seu peito.


- Meu bem... Vem aqui. Eu te entendo. É muito difícil mesmo. Admiro o sacrifício que você está fazendo por nós. A obrigação de uma vida impecável, vigiados para sempre por paparazzis e fofoqueiros. Eu entendo e agradeço. Mas não tem muito jeito... Faz parte do nosso papel, e da nossa vida agora.


Com o nariz vermelho e inchado, Kate enxuga as lágrimas com as costas das mãos e algumas fungadas.


- Desculpa, meu amor. Me perdoe... Estou sendo egoísta. Você está no mesmo barco, nessa cerimônia para os outros.

Jogou a lista em cima de mesa, e deu beijos repetidos e estalados pelo rosto de seu príncipe. A lista ficou escancarada na tampa de cedro envernizado. Entre todos os nomes, um se destacava. Um nome estranho, diferente de todos, que dispensava um grifa texto para ser destaque.

Lentamente, Kate alcançou a lista. Leu o nome. Leu uma segunda vez e virou-se para William, com a testa franzida e o dedo indicando a seguinte combinação: Stênio Garcia.


- Quem é esse? – Indagou a futura rainha.


William ficou branco. E tentando manter a frieza de um gentleman, respondeu:


- Um grande amigo de minha falecida mãe.


- Stênio Garcia? Nunca ouvi falar na minha vida nesse sujeito.


E perguntou mais uma vez para ser a última.


- Quem raios é Stênio Garcia e o que ele faz na nossa lista de convidados?


De cabeça erguida, William respondeu orgulhoso:


- Um ator brasileiro formidável, que tenho a honra de ser amigo íntimo. E ele vai na festa.


E com um chute na porta, a raiva voltou para Kate Middleton e seu rosto de traços finos:


- Ah mas não vai mesmo!


- Vai sim. E nada o que você diga ou faça me fará mudar de ideia.

Em tom de decidido desafio, ela responde:


- Se você confirmar este sujeito no casamento está tudo acabado entre nós.

William balança a cabeça, olhando para baixo.

- Pois então, está acabado.


Kate não diz nada. Está em choque. Catatônica.


E antes de levantar, o ex-noivo dá à sua citação um corajoso suspiro:


- “É uma cilada, William. É uma cilada.”



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Casamento





















Orgulhoso, Gilberto revezava o olhar entre seus três filhos sentados pela sua sala. Não conseguia esconder um sorriso de dever cumprido ao observá-los. Tinham se tornado jovens adultos de caráter, trabalhadores e principalmente, pessoas de bem. Era isso. Aos 56 anos, tinha a feliz certeza de ter colocado no mundo pessoas de bem.


Mas aquela reunião de família não era para lamber cria. Tinha um propósito claro, um mistério o qual os três filhos aguardavam ansiosamente sua revelação: um inusitado convite “para uma conversa” em plena terça a noite.


E seguido do tintilhar da xícara no pires, ele anunciou.


- Bom crianças. Vamos direto ao ponto: vou me casar.


Silêncio. Sobrancelhas franzidas. Primeiro a digerir a informação, o caçula Pedro Henrique expressou sua surpresa com o estalar dos ovos que pisava.


- Puxa pai... Que ótimo! Já faz tanto que você e a mãe se separaram mesmo. Acho legal mesmo, de verdade. Mas...


- Mas com quem?? Você nem namora pai! – como um vulcão, a pergunta irrompeu de uma perplexa Mariana, filha do meio.


Com um sorriso maroto, o primogênito Felipe completou, orgulhoso:


- É a tia Regina né pai? Sempre suspeitei do que vi em Ilha Bela aquela vez. Tinha 11 anos mas não esqueço! Sempre suspeitei, seu malandro...


Gilberto escutava seus filhos com um sorriso sereno. E sem tirá-lo do rosto, continuou:


- Vou me casar com o Carlão, meu amigo do clube.


O sorriso maroto de Felipe se transformou numa expressão de choque. Atônito, o queixo de Pedro Henrique desmanchou no seu peito, sem vida. Se descontasse os olhos arregalados e a cor branco-sulfite de seu rosto, seria possível dizer que Mari era a menos impressionada. E logo perguntou:


- Pai, você é viado?


O patriarca suspirou serenidade. Já esperava por tal fatídica pergunta. Respondeu com a tranquilidade de um Dalai Lama, certo de sua decisão.


- Não filha, não sou. Sou hétero, como sempre fui. – respirou fundo, e continuou. – Acontece que nos últimos anos vinha me sentindo muito sozinho. Essa casa grande, vocês seguindo suas vidas... E queria uma companheira.


- Companheira pai! Companheira! Não um tiozão do clube! – Pelo ângulo de arqueamento de suas sobrancelhas, Felipe entregava seu desespero.


Mas somente com o olhar, Gilberto pediu calma. Continuou:


- Mas a experiência que tive com sua mãe e todas que seguiram dela só me mostraram que a convivência com uma mulher é insustentável. Vocês me conhecem, sou engenheiro, racional em tudo. E salvo o fator “sexo” e “carinho”, meu casamento com o Carlão tem tudo pra dar certo.


Os três se entreolharam. Esperança de ser uma pegadinha. Ou uma piada besta de um pai que nunca foi de muita graça.


- Me escutem e verão como faz sentido. Casado com Carlão terei todas as vantagens de um matrimônio feliz. O que nunca tive com sua mãe ou mulher nenhuma na minha vida. Poderei deixar cuecas pela sala. Esquecer datas e a existência da TPM. Comer pizza com cerveja numa segunda por que é bom e meu colesterol respeita isso.


- Pai, você enlouqueceu! O que vão falar na família, no seu trabalho?


Gilberto se animou. As perguntas só lhe davam mais certeza da sua escolha.


- Vão falar que nunca estive tão sensato na minha vida! Você fala de trabalho. Pois então. Esses dias cheguei em casa bêbado, cantarolante e com um perfume doce na gola da camisa. Errei, confesso. Sabe o que o Carlão fez? Sabem??


- Não pai, não sei. – Desconsolado, o primogênito só respondia com as mãos no rosto.


- Ele simplesmente me olhou, sorriu e disse: “era boa?”. “ERA BOA?”. Nada de pratos voando, noites na dureza do sofá, nada!


- Mas pai, então você quer um amigo. É isso! Só um amigo, um roomate.


- Não Mari. Quero um esposo. Alguém para chamar de meu. Para me receber em casa depois de um dia cheio com uma long neck gelada e comentários pertinentes sobre a última rodada. Reclamações? Só sobre o frangueiro do goleiro.


A cada resposta, Gilberto se empolgava ainda mais com seu plano perfeito.


- A TV não conhecerá uma novela. Dane-se quem matou quem! Na nossa casa, a louça poderá sim repousar feliz na pia por uns dias. Meu carro não aparecerá ralado, não existirão cremes além do de barbear na pia. E por falar de pia e banheiro, a tampa estará sempre levantada. Sem broncas. Sem cobranças. Sem...


- Pai! – o caçula perdera a paciência – Olha aqui. Se você não se descobriu gay, o que aliás aceitamos numa boa, você enlouqueceu. Ficou velho e maluco! Simples assim.


- Bom, pelo visto vocês não entenderam nada do que eu disse. E se não quiserem também, tudo bem.


Gilberto se levantou, entre orgulhoso e decidido.


- Eu vou embora. Podem ficar a vontade, a casa é de vocês. Mas eu tenho um compromisso. Combinamos há semanas de assistir a semi-final da Champions League e não posso me atrasar para o começo do jogo.



domingo, 25 de abril de 2010

Sou Casado e Amo Minha Esposa













De frente para o círculo desenhado no espelho de um vaporoso banheiro, o quarentão Dalton se prepara para mais uma noite.

Perfume, check com borrifadas estratégicas.

Camisa social sob medida, meia aberta. Check com um botão aberto novamente.

Barba propositalmente por fazer. Check passando a mão no rosto como num legítimo anúncio da Gillete.

E por último e mais importante, a aliança. Check com uma baforada no dedo anular, na tentativa de fazer cintilar ainda mais o dourado do mini bambolê.

Avisou a mãe que estava de saída e caiu na noite - ou na night, quando a trabalho no Rio.

Há 12 anos que Dalton era um fiel marido e dedicado pai de uma família planejada nos mínimos detalhes para parecer existir. Seu matrimônio era tão bem construído que ele exalava a confiança de um homem bem casado. E as mulheres farejavam.

Na sua mesa de trabalho, um belo porta-retrato emoldurava Juninho, o seu moleque de 11 anos fã de futebol que ele encontrou numa rápida busca no Getty Images. “Vai dar trabalho esse menino”, dizia o paizão orgulhoso. No fundo de tela, Aninha. A princesa do papai. Recortada e escaneada de um anúncio de sabão em pó.

Nos intervalos do cafezinho, arrancava suspiros femininos detalhando o quanto se apaixonava toda dia por sua esposa. Do quanto gostava do seu rosto amassado logo cedo. E como há 12 anos o seu despertador era cobri-la de beijinhos.

“- A meta é mais difícil que a desse mês: cobrir 100% do seu corpo, só de beijos”

E ria com a roda de mulheres, sustentando o olhar por pouco mais de 3 segundos com a nova contratada do departamento financeiro.

Obviamente, era um sucesso. Romântico, marido dedicado, bem sucedido. O perfil de homem que abarrota a caixa de entrada de Santo Antônio.

Com seu terno bem cortado e aliança bem colocada, enlouquecia as mulheres com o bônus de ser inalcançável.

Afinal, por trás dessa imagem Dalton era um sedutor. Um sedutor discreto. Com olhares firmes, mas rápidos. Sem o desespero imediatista do solteiro, contava com a tranquilidade de um homem casado, bem resolvido. E com a descrição de um mineiro, “fazia a rapa na firma”- palavras de Josias, seu porteiro e único confidente.

Nada de carros importados ou passeios extravagantes, Dalton impressionava pela aliança. Aliás, o primeiro adereço a colocar no seu Renault Scenic vinho foi um adesivo de “bebê a bordo” no vidro traseiro.

Driblava qualquer princípio de comprometimento com álibis e desculpas para todos os momentos:

“- Poxa... Sábado eu não posso, minha querida. O Juninho tem a final e eu fiquei de levar todo o time campeão no McDonalds”

“- Hoje a noite o Beto e a Sônia vão jantar em casa. Soube agora, não vai ter como escapar. Me desculpe, meu bem.”

“- Acredita que a Regina quer que eu viaje para a casa da minha sogra, bem no carnaval?”

Até que o inevitável aconteceu. Dalton se apaixonou. E o pior (ou melhor): perdidamente. Cristina não pedia para acabar seu casamento, cobrava exclusividade ou ligava de madrugada contando “toda a verdade” para sua já sonolenta mãe. Para ela, tudo que lhe bastava era seu amor.

Depois de anos sustentando uma mentira por amores pueris, por simplesmente pontuar em um placar, Dalton se viu de peito aberto por estar com as mãos ao alto, completamente rendido pelo mais sincero dos afetos.

Dalton não teve outra escolha. Se encheu de coragem e resolveu tudo de uma vez por todas a farsa que era seu casamento.

Depois de meses de um divórcio arrasador, conseguiu se separar. Não queria ver Regina para não lembrar, pensou até em se mudar. Um lugar qualquer que não exista o pensamento em seus queridos filhos.

E assim, se mudou para a casa de Cristina.

"- Sabe Tina, fiquei ainda mais triste - e estupefato - quando soube que Regina já tinha um caso há anos com um empresário japonês, que conheceu nas aulas de pilates."

Se mudariam para Tóquio em semanas. E decepcionado, mas feliz por ter encontrado um novo amor em um momento tão difícil da sua vida, nem com a guarda do porta-retrato ele ficou.