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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Me Add no Face?

Mas você lê e apaga hein?

Assim como era no princípio, agora e sempre por todos os séculos dos séculos que o mundo se relacionará via redes sociais.

Mas vamos ao hoje. Afinal, seguindo a última tendência o Orkut virou uma rede social estendida na laje, para deitar com a patroa enquanto a criançada brinca na piscina de lona.
O que pega hoje é o Feice, meu. E não é a toa. Segundo o último Dossiê MTV5, para o jovem não estar no Facebook é o equivalente a não existir.

Mas por quê tanto sucesso?

Um cru exemplo de um diálogo mal transcrito do filme “A Rede Social” nos responde bem:

“- Você sabe se fulana namora ou está saindo com alguém?

- Como vou saber? As pessoas não andam por aí com uma placa no pescoço dizendo se estão comprometidas ou não.”

E é daí que o Homem do Ano juntou os dedos em pinça e teve seu estalo.

Melhor que as outras tentativas até então, Mark Zuckerberg se apropriou com maestria do que acontecia analogicamente há séculos, entre tias debruçadas sob janelas de casinhas viradas para o coreto.

Da praça da mais pacata cidade à boate da mais insones das metrópoles, cada um quer saber o que faz o seu círculo social girar. E se sentir parte dele. Para onde foram, o que fazem, com quem se relacionam.

Mas isso tudo você já sabe, não é mesmo? Até o Jornal Hoje deve ter feito uma matéria, logo depois daquele quadro sobre bullying.

O pulo do gato do nosso amigo de Harvard está no como.

O que antes era recebido e repassado via scraps e secretos testmonials hoje é propagado exponencialmente com um único post em um mural. Um misto de megafone e antena, que envia e recebe informações com a facilidade que nenhuma outra rede social conseguiu até então.

Seu diferencial está no quanto ele agrega pessoas e informações direto da fonte, que antes poderiam se perder no caminho de cliques sinuosos até entrar em um perfil.

O Facebook traz a rotina de 500 pessoas para sua página inicial, colocando um holofote no cotidiano. E para melhor ou pior, destacando no centro do palco quem você é. Mas tanta facilidade traz um porém. Uma rede social baseada no compartilhar jamais estaria imune aos exageros.

A facilidade de sem disparar um único clique poder estar imerso na vida de alguém ou ter alguém mergulhado na sua, imperceptivelmente, inebria. E nos faz esquecer a dimensão da vitrine a qual nos expomos.

O que está postado não volta atrás. Se perde no infinito do cosmos da internet.
Sua imagem fica lá, como um visual que nunca mais poderá ganhar outro corte de cabelo.
E nessas, confunde-se compartilhar o interessante com contar o trivial em seu estado mais tedioso.

São Paulo sempre terá trânsito às 18hs.

Antes do almoço é muito comum ter fome.

Dias tristes fazem parte da nossa vida, assim com dias de chuva fazem parte da semana.

O destaque do UOL é lido por grande parte das pessoas que trabalham com um computador.

Comentários e lembranças antes restritos ao nosso cérebro ou ao colega ao lado pulverizam-se para o mundo do template azul. O resultado é um bombardeio do óbvio. Uma intimidade forçada como uma foto dos curativos de um pós-operatório, de um prato de miojo instangrado, de caracteres dizendo o quanto chove lá fora.

A rotina escancarada perde todo seu encanto. O charme de poder contar ou convidar quem você quer que faça parte dela. Quem realmente importa entre sua enorme lista de amigos no Face.

Esses dias vi um projeto de um fotógrafo que tirou uma foto por dia, por um ano. Sua ideia era mostrar a beleza da rotina, do engano em acharmos que bons momentos são feitos somente do planejado.

Viver bem também está em um café num dia frio ou um encontro no supermercado com um amigo sumido. Mas garanto que retratar o alívio de ir ao banheiro depois de tomar muita água não fez parte dos seus cliques.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Inspiração





















“O escritor do coração partido”.


Era o que estava escrito na capa da Folha Ilustrada, orgulhosamente enquadrada e pendurada na parede. Na foto que ilustrava a matéria, um jovem escritor posava sorridente, sentado de pernas cruzadas no banco de um parque ensolarado.


A matéria tecia entre literatos elogios como Fernando Rio das Pedras, depois de um arrebatador pé na bunda que o fez perder o rumo de casa e o promissor cargo de trainne, escreveu um livro que conquistou semelhantes por todo país. Corações partidos de todo Brasil, do Oia-o-porre ao Chorinho, viram no seu romance de estréia um ombro amigo, um porta voz para as angústias de quem sente as pontadas da rejeição amorosa.

O segundo livro foi um sucesso ainda mais estrondoso. Leitoras de rosto inchado de choro trocavam o cativeiro do sorvete de massa e noites de comédias românticas pelas doces páginas do escritor do coração partido.

Entre os jovens, seus poucos livros tornaram-se o alento hype de quem mudava com pesar seu status nas redes sociais. Citações eram pulverizadas pela internet, usadas para indiretas de MSN, para posts melosos em murais virtuais. E com cada par de aspas, seu sucesso só crescia. Era pop. Suas frases enfileiradas o renderam um roteiro para uma mini série com Selton Mello, além de uma letra para um single de Rodrigo Amarante com Maria Gadú.

Mas algo aconteceu. O destino, sempre ele, trouxe ao jovem escritor uma reviravolta que ele jamais planejaria para um personagem. Quatro anos após sentar no sofá de Jô Soares, Fernando se via um autor sem público algum. Pior: completamente falido. Deslumbrado, tinha investido todo seu dinheiro na sua própria editora. Com os fracassos sucessivos dos últimos três livros, não conseguia cobrir nem o custo de manutenção de uma das máquinas que importou da Alemanha.

Por mais que não queria reconhecer, ele sabia o motivo.

Em uma curiosa ironia, faziam 2 anos que Fernando conhecera a mulher da sua vida. Não tinha absoluta certeza desse fato, mas só dele chegar a ser cogitado lhe trazia uma alegria imensurável. Nunca tinha se sentido tão realizado e completo em seus breves 26 anos de vida. Era maior que ele, saía pelos poros e consequentemente, pelas pontas dos seus dedos.

Mas com sua felicidade, os romances que começavam (no caso, terminavam) com “acho que é melhor a gente ser só amigo” perderam sua autenticidade. E seu público percebia. Queriam sentir sua dor em verbos e pronomes, ter a mesma compreensão sincera do que sentiam. Do que faziam eles borrarem com lágrimas Times New Roman corpo 12.

Pelas esquinas da Internet, Fernando era bombardeado:

“Escritor do coração remendado, só se for!”.
“Não engulo esse cara. Falso.”
“Quem é ele pra falar de ser trocada? Quem?”
“Até tu, Fernandus?”.

E as críticas, antes tão generosas, seguiram a voz do povo. Definições como “brega”, “superficialmente feliz”, “romântico barato” carimbavam seus livros e selaram o fim daquele jovem escritor de apelido piegas.

Estava falido em tudo: dinheiro, futuro, auto-estima.

Só existia uma solução, que o trouxe até aquele momento. Lá estava Aline a sua frente, encantadora como sempre. Esperava que ele dissesse o que tanto lhe afligia e teimava em não dizer. E ele disse, com os olhos como um copo com água além da borda.

Foi a primeira vez que Fernando terminou um namoro. E também a primeira vez que terminou sem motivo algum.

Na busca por uma reviravolta, deixou o amor ir embora por sua porta entre soluços de “mas porquê?”.

Desde seu doloroso término auto-induzido, tentou por dias escrever páginas novas. Mas seu plano não estava dando certo. Achava que a dor de perdê-la o faria publicar a Odisséia do pé na bunda em poucos meses, tempo para explicar por que tinha feito aquilo e consertar o mal feito.

Meses se passaram sem que uma única linha fosse escrita.

No terceiro mês de páginas em branco como sua vida, desistiu. Preferiu ficar falido do que perder quem mais amava no mundo. Fama, dinheiro, prestígio – qual o propósito sem alguém para dividir?

Mas era tarde demais: Aline não atendia suas ligações. E a única resposta que tinha vinha sempre por terceiros.

“Deixa ela em paz, Fernando. Você já machucou ela demais. Segue a sua vida.”

Oito meses se passaram e o bico de revisor freelancer em uma agência de publicidade passava longe de quitar suas dívidas monumentais. Mas pelo menos permitia que ele seguisse o repetido conselho e tentasse escrever um livro que reconhecia ser vazio.

Fernando tinha se tornado um personagem de seu próprio livro. Assolado por um frio constante frio na barriga, fruto de um coração que andava sempre apertado. Se sentia burro, sozinho e envergonhado pelo que deixou ir embora por sua porta.

E quase um ano depois, foi entrando por uma porta que a viu. Ainda mais bonita, sentada na simpática mesa ao lado da janela, como ela sempre gostou. Com um sorriso, tinha acabado de empurrar sua franja para trás da orelha. Estava com o braço esticado por cima da mesa, entrelaçando os dedos com outro sorridente interlocutor.

Ficou catatônico por uns segundos. Pálido. O coração - sempre ele - fazia a trilha sonora como um abafado bumbo no seu peito. Queria chegar lá e pedir desculpas. Explicar por que fez aquilo, pelo menos comunicar seu erro mesmo sabendo que era sem volta.

Expressou sua decisão em passos rápidos e firmes.

Voltou para casa e escreveu exatas 78 páginas, sem recuar a barrinha piscante sequer uma vez. Afobado, rompeu sua auto-proibição de meses atrás e abriu o Facebook de Aline. Foi direto no álbum “Viagem Angra dos Reis” .

Tortura chinesa em forma de românticos momentos em alto mar.

O teclado mal acompanhou as outras 115 páginas que saíram como um foguete. Por madrugadas a fio, Fernando alimentava a criatividade que o consagrou com sessões de auto-flagelação online.

Por fim, imprimiu um A3 colorido e colou na parede atrás do monitor. Na imagem, um plástico beijo entre risos.

Em 3 meses com poucas horas de sono, tinha escrito a obra definitiva. A obra prima do pé na bunda.

Um ano e meio depois do seu término, nunca tinha visto um editor tão empolgado com um projeto, com tantos “que bom que você voltou”. Mas o mesmo profissional apontou um porém:

- Você não tem um final, cara. O livro está ótimo, mas cadê o final? Um livro assim precisa de um gran finale, algo que amarre tudo, que o leitor encontre capa com contra capa e suspire. Desse jeito não tem propósito, fica um emaranhado de corações partidos. Fica difícil de sair. De vender. Resolve isso que a gente conversa. Boto fé!

Com um tapinha no ombro, ele tentou. Sem sucesso. A história realmente não amarrava. Por um simples motivo: para ele não tinha um fim. E talvez nunca teria. Seria para sempre uma tristeza com três pontinhos.

Com Fernando de frente para o monitor e com o queixo debruçado na mão direita, o telefone tocou. Atendeu com uma voz insossa digna de um personagem seu. Em resposta, nada. Somente um silêncio familiar do outro lado da linha.

Uma voz chegou, com a firmeza de uma coragem recém adquirida.

- Eu te juro, Fê. Você não merece esse telefonema.

A cena do restaurante se repetiu. Fernando balbuciou.

- Aline, eu...

- Cala a boca. Me escuta.

Um novo silêncio, temperado de indecisão, de “por quê estou fazendo isso?”.

- Mas a verdade é que eu não poderia passar o resto da minha vida arrependida de não ter feito.

E com um suspiro, continuou. Firme.

- O Rafa me pediu em casamento.

E lá estava ele. Ali, escancarado na sua frente, o escritor do coração partido tinha encontrado o final do seu novo livro.


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Casamento





















Orgulhoso, Gilberto revezava o olhar entre seus três filhos sentados pela sua sala. Não conseguia esconder um sorriso de dever cumprido ao observá-los. Tinham se tornado jovens adultos de caráter, trabalhadores e principalmente, pessoas de bem. Era isso. Aos 56 anos, tinha a feliz certeza de ter colocado no mundo pessoas de bem.


Mas aquela reunião de família não era para lamber cria. Tinha um propósito claro, um mistério o qual os três filhos aguardavam ansiosamente sua revelação: um inusitado convite “para uma conversa” em plena terça a noite.


E seguido do tintilhar da xícara no pires, ele anunciou.


- Bom crianças. Vamos direto ao ponto: vou me casar.


Silêncio. Sobrancelhas franzidas. Primeiro a digerir a informação, o caçula Pedro Henrique expressou sua surpresa com o estalar dos ovos que pisava.


- Puxa pai... Que ótimo! Já faz tanto que você e a mãe se separaram mesmo. Acho legal mesmo, de verdade. Mas...


- Mas com quem?? Você nem namora pai! – como um vulcão, a pergunta irrompeu de uma perplexa Mariana, filha do meio.


Com um sorriso maroto, o primogênito Felipe completou, orgulhoso:


- É a tia Regina né pai? Sempre suspeitei do que vi em Ilha Bela aquela vez. Tinha 11 anos mas não esqueço! Sempre suspeitei, seu malandro...


Gilberto escutava seus filhos com um sorriso sereno. E sem tirá-lo do rosto, continuou:


- Vou me casar com o Carlão, meu amigo do clube.


O sorriso maroto de Felipe se transformou numa expressão de choque. Atônito, o queixo de Pedro Henrique desmanchou no seu peito, sem vida. Se descontasse os olhos arregalados e a cor branco-sulfite de seu rosto, seria possível dizer que Mari era a menos impressionada. E logo perguntou:


- Pai, você é viado?


O patriarca suspirou serenidade. Já esperava por tal fatídica pergunta. Respondeu com a tranquilidade de um Dalai Lama, certo de sua decisão.


- Não filha, não sou. Sou hétero, como sempre fui. – respirou fundo, e continuou. – Acontece que nos últimos anos vinha me sentindo muito sozinho. Essa casa grande, vocês seguindo suas vidas... E queria uma companheira.


- Companheira pai! Companheira! Não um tiozão do clube! – Pelo ângulo de arqueamento de suas sobrancelhas, Felipe entregava seu desespero.


Mas somente com o olhar, Gilberto pediu calma. Continuou:


- Mas a experiência que tive com sua mãe e todas que seguiram dela só me mostraram que a convivência com uma mulher é insustentável. Vocês me conhecem, sou engenheiro, racional em tudo. E salvo o fator “sexo” e “carinho”, meu casamento com o Carlão tem tudo pra dar certo.


Os três se entreolharam. Esperança de ser uma pegadinha. Ou uma piada besta de um pai que nunca foi de muita graça.


- Me escutem e verão como faz sentido. Casado com Carlão terei todas as vantagens de um matrimônio feliz. O que nunca tive com sua mãe ou mulher nenhuma na minha vida. Poderei deixar cuecas pela sala. Esquecer datas e a existência da TPM. Comer pizza com cerveja numa segunda por que é bom e meu colesterol respeita isso.


- Pai, você enlouqueceu! O que vão falar na família, no seu trabalho?


Gilberto se animou. As perguntas só lhe davam mais certeza da sua escolha.


- Vão falar que nunca estive tão sensato na minha vida! Você fala de trabalho. Pois então. Esses dias cheguei em casa bêbado, cantarolante e com um perfume doce na gola da camisa. Errei, confesso. Sabe o que o Carlão fez? Sabem??


- Não pai, não sei. – Desconsolado, o primogênito só respondia com as mãos no rosto.


- Ele simplesmente me olhou, sorriu e disse: “era boa?”. “ERA BOA?”. Nada de pratos voando, noites na dureza do sofá, nada!


- Mas pai, então você quer um amigo. É isso! Só um amigo, um roomate.


- Não Mari. Quero um esposo. Alguém para chamar de meu. Para me receber em casa depois de um dia cheio com uma long neck gelada e comentários pertinentes sobre a última rodada. Reclamações? Só sobre o frangueiro do goleiro.


A cada resposta, Gilberto se empolgava ainda mais com seu plano perfeito.


- A TV não conhecerá uma novela. Dane-se quem matou quem! Na nossa casa, a louça poderá sim repousar feliz na pia por uns dias. Meu carro não aparecerá ralado, não existirão cremes além do de barbear na pia. E por falar de pia e banheiro, a tampa estará sempre levantada. Sem broncas. Sem cobranças. Sem...


- Pai! – o caçula perdera a paciência – Olha aqui. Se você não se descobriu gay, o que aliás aceitamos numa boa, você enlouqueceu. Ficou velho e maluco! Simples assim.


- Bom, pelo visto vocês não entenderam nada do que eu disse. E se não quiserem também, tudo bem.


Gilberto se levantou, entre orgulhoso e decidido.


- Eu vou embora. Podem ficar a vontade, a casa é de vocês. Mas eu tenho um compromisso. Combinamos há semanas de assistir a semi-final da Champions League e não posso me atrasar para o começo do jogo.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

XV de Piracicaba
















Que o Brasil é o país do futebol todo mundo sabe.

Este belo esporte bretão se adaptou ao Brasil como um gringo em uma praia de areia branca a bebericar caipirinhas. São 800 clubes profissionais, 13 mil times amadores e uma rápida pesquisa no Wikipedia que só confirma uma paixão nacional que dispensa maiores comprovações.

Na vida social de um brasileiro, o futebol é a luz no fim do túnel da falta de assunto. Ele transita livre por todas as classes sociais, une opiniões e promove debates. Melhor que qualquer variação brusca de temperatura ou chuva inesperada para cortar o silêncio de um elevador subindo andares.

Futebol é chute de voleio que bate na trave e entra, é defesa de mão trocada aos 45 do segundo tempo, é o sorriso irônico ao colega de trabalho depois da rodada do final de semana.

Futebol é tudo isso. E muito mais. Mas não para Luiz Augusto. O rapaz nasceu com uma sina, um mal que não conseguia tirar, por mais que tentasse. Luiz era réu confesso de um pecado mortal que o acampanhou das aulas de Educação Física aos olhares perplexos em mesas de bares.

Para ele – pasmem - futebol era um esporte como outro qualquer.

Não que desprezasse por completo. Era como uva passa em uma torta de maçã: não fazia falta muito menos marcava presença.

Nessa última Copa do Mundo torceu com tamanha fé e afinco para a Seleção que quase convenceu. Xingava a televisão, bradava comentários como “Zagallo, coloca o Romário!”. Chegou a ficar verdadeiramente triste com a eliminação da Seleção. Mas entre nós: muito mais por que ia deixar de sair mais cedo do trabalho para churrasquear com os amigos.

A vida corria bem para nosso anti-heroí, que em anos de prática havia se tornado mestre em comentários genéricos sobre o tema e imperceptíveis mudanças de assunto na mesa do bar. Tudo ia tranquilo, até que um namoro entrou pela sua vida. E para sua sorte, Letícia também não era apegada as maravilhas das quatro linhas em um tapete gramado.

Tudo certo. Até que em seis meses , este dia chegou.

Sentado na comprida mesa de almoço de domingo, o recém-apresentado Luiz Augusto engolia entre garfadas sua timidez e receio pelo fatídico assunto. O almoço corria bem, com Luiz seguindo a voz materna que ecoava ordens de elogiar, agradecer e repetir o prato. Mas etiqueta nenhuma o salvaria do limbo:

- Então Luiz... Que time você torce?

A perguntou veio acompanhada dos olhares inquisidores de primos, irmãos e o grão-mestre daquele conclave: o sogro. Um homem de seus 50 e poucos anos, de vistoso bigode, careca e barriga acentuadas, com uma voz firme de quem não gosta de ser contrariado. A expressão de Letícia denunciava um misto de pena e presságio de vergonha alheia, enquanto revezava o olhar entre o pai e o namorado como quem acompanha uma acirrada partida de tênis.

Durante meses Luiz Augusto disfarçou o suor frio que corria sua espinha com as histórias do fanatismo de seu sogro pelo Sport Club Corinthians. Mas para isso, o jovem havia preparado uma carta na manga. E respondeu com a firmeza de quem em seguida beija o escudo do time.

- Sou XV de Piracicaba, desde criancinha.

Os Albuquerques se entrelhoaram, entre curiosos, surpresos e sadicamente um pouco decepcionados por ele não ser torcedor de nenhum dos times rivais. O grão-mestre externou a curiosidade da família:

- Mas... E aqui em São Paulo, qual você torce?

- XV de Piracicava também. Sou quinze onde for. – Um ator da Malhação seria mais convincente que ele nessa resposta. Mas passou. O plano estava dando certo.

O sogro soltou os talheres no prato. Luiz Augusto não sabia o que veria em seguida. O “tio” olhou sério para o canditado a genro, pensativo.

E abrindo um lento sorriso, começou a cantar com o mais legítimo dos sotaques caipiras:

- Cáxara di fórfi, carcanha de grilo. Suvaco de cobra, asa de barata! Garrafão de pinga, nhéque de portêra. Jaquetá de côro, já que tá que fique! 3 veiz 5 é...

Por um milagre da perspicácia, Luiz Augusto completou:

- Quinze!

O sogrão soltou uma risada alta.

- Esse hino é demais! Quem diria, um torcedor do XV. Sabe que admiro quem fica com o seu time, seja o tamanho ou aonde estiver. Não sei se a Letícia já te contou, mas eu já vi muito jogo do XV de Piracicaba. Meu querido vôzinho, que Deus o tenha, tinha um sítio por lá e era torcedor símbolo do Quinzão. Pediu para ser sepultado de uniforme e tudo.

Fez uma breve pausa, em silêncio respeitoso, e continou, todo animado:

- Vamo lá, essa você sabe Luizão. Com sua idade, você teve a sorte de ver o timaço de 95.

Com o pouco de coragem que lhe sobrava, Luiz foi all in na ousadia futebolística:

- Ô se lembro, tio. Time assim não se faz mais não. Uma seleção!

O sogro olhou para Luiz Augusto, cerrando os olhos. A fatia do abacaxi tremia no garfo do rapaz. Parecia que suspeitava de algo. Ou queria lembrar alguma coisa. Prosseguiu:

- Era Zé Wilson no gol, Jair, Tonhão, Ari e Danilinho fechando a lateral esquerda. O meio era só craque: Afonso, Curupira - volante dos bons - Chico Bahiano e Gera, o rei das faltas. Na frente tinha o matador do João Ramiro, junto do... Do...

Fez um sinal de fast foward com as mãos, pedindo para que Luiz completasse. O esforço do sogro para lembrar era tamanho que parecia que estava prestes a espirrar.

Luiz Augusto estava desesperado. Olhou para os lados, como que a procura de um milagre, de uma enciclopédia do futebol aberta na página certa. Só encontrou olhares desconfiados dos “primos”, de complacência da namorada e de impaciência da empregada, que esperava eles encerrarem o papo furado para perguntar quem queria mais café.

Em uma tentativa desesperada, buscou o recurso que sempre usou: mudar de assunto. E num impulso, a resposta saiu como uma súplica, quase como a confissão de que na verdade ele não sabia nada de futebol.

- O cafezinho!

Silêncio na mesa. Testas franzidas. Risadas seguradas, imitando um relinchar abafado de um cavalo. A resposta cortou imediatamente o “espirro”, fazendo que o sogro levantasse lentamente com o dedo em riste, apontando para o apavorado rapaz.

- Esse mesmo! - Disse isso estendendo o "e", como um cientista que grita "eureka" . - Craque. Que neguinho mais bom de bola, dava gosto de ver né não?

O almoço encerrou, com Luiz aprovado com um tapinha nas costas e um convite para ver um jogo do Timão, na feliz condição que ele não fizesse nenhum comentário contra o alvi-negro paulista.

Satisfeito, naquele dia Luiz Augusto voltou para casa cantarolando. A música? “Asa de barrata, carcanhá de grilou. Treis veiz cinco é quinze. Xis Vê, Xis Vê!”

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Namoro





















É fato. Textos românticos que começam com citação de dicionário são manjados, superficiais e mela cueca como o teclado de uma música do Bon Jovi.

Mas como eu tenho o mérito da ousadia, visto que dei um título desses a essas singelas linhas que tenho o prazer de ter seus olhos a segui-las, vejamos o que o Aurélio tem a dizer sobre “namoro”.


na.mo.ro

sm (der regressiva de namorar) 1 Ato de namorar. 2 Galanteio. 3 O namorado ou a namorada.

Certo. Realmente não foi a definição mais esclarecedora do mundo. Mas isso só me ajuda a tentar criar a minha versão sobre o que este título implica e significa na vida de uma pessoa.

Primeiro. Por que as pessoas namoram? Antigamente era claro. O namoro era simplesmente uma ante-sala para o casório. Aliás, nos tempos do meu e do seu bisavô o item número 2 da definição acima era de fato feito na sala, com a companhia vigilante da futura sogra em um sofá por perto.

Hoje, este objetivo ainda existe. Mas como algo distante, longe, deixado para pensar depois com uma conta bancária razoável ou a certeza que o matrimônio valha outra tentativa. A prioridade é ser feliz, e agora. Namora-se por que você simplesmente gosta de quem você escolheu depositar todo seu afeto.

Mas será que é tão simples assim?

Surge então uma inevitável pergunta: com a desobrigação do casamento em cada namoro e um vasto mundo de oportunidades para solteiros e solteiras se lambuzarem no mel da conquista, por que as pessoas ainda escolhem o doloroso risco de ter seu coração partido? Afinal, a vida em voo solo está aí, com todas as vantagens da liberdade de fazer e pegar quem bem entende.

O “affair” da revista Caras, o “ficante” da revista Capricho, o “fuck friend” da revista Nova só mostram o quão normal e corriqueiro o romance sem compromisso está. Uma fase de “curtir a vida” é bem vinda, e valorizada. Dá para viver muito bem saindo para onde quiser e sem número certo para boa parte dos nossos telefonemas.


Na teoria, é possível preencher toda nossa inerente carência por cafunés sob o cobertor e mensagens de texto lidas com um sorriso visitando tudo que nos apetece no cardápio. Satisfazendo-se com romances simples e apetitosos como um macarrão carbonara.

Na teoria. Pois na prática, quando chega a frechada do cupido ou o tiro acerta o Álvaro, entra em vigor um antigo ditado sertanejo: “cavalo selado não passa mai de uma veiz”. O recém contraído frio na barriga é acompanhado de um leve e intuitivo desespero, de algo que lhe diz que se você deixar esse potro passar vai ver embora com a poeira na estrada uma baita chance de ser feliz. Ou pelo menos viver assombrado com a dúvida do que seria um passeio a galope.

E esse imprevisível senso de urgência é o primeiro sintoma da paixão - a faísca que começa namoros. Coisa que depois, aos poucos, vai virando algo maior que nem eu, você, ou fogo que arde sem se ver consegue definir.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Primeiro Encontro




















Ser ou não ser, eis a questão. Transar no 1o encontro ou não - vou no tesão ou sigo o “padrão”?

Ó dúvida cruel que assola as mulheres. Ainda mais quando quem está do outro lado da mesa à meia luz vale o lábio mordido após o gole de vinho e a ofegante ideia de usar os pratos como travesseiros e a toalha como lençol.

“O que ele vai achar de mim? Vai me achar fácil? Vai me achar quente? E o mais importante: ainda serei atraente para ele me ligar assim, de repente?”

Uma coisa é verdade: se oferecido, ele será prontamente aceito com o eterno sorriso juvenil que acompanha a abertura de um sutiã. Não existe homem no mundo que recuse sexo, ainda de uma mulher que ele também pensa em jogar na mesa desde o momento que ela entrou no carro e ele elogiou o seu perfume.

Contudo, o dilema a ser respondido é se isto faz com que essa suspirante noite de beijos no pescoço fique somente nela, terminando apagada como a luz que foi acionada para favorecer silhuetas.

Quando a intenção é uma noite, uma cama e só, tal leve preocupação não chega a virar um problema. O mundo dos relacionamentos evoluiu para separar o joio de uma one night stand do trigo de uma noite que a lua parece brilhar sob o olhar besta dos apaixonados.

E é exatamente aí que começa o problema: quando existe um interesse verdadeiro que o primeiro encontro vire o segundo e um buquê de flores depois de uma terça-feira cansativa.

Para um homem, quando seu interesse é genuíno (nesse caso, segue o critério “apresentável para mamãe”) o sexo torna-se a cereja de um bolo feito com nada de marzipã e muito sushi, bares e baladas, com creme de cartão de crédito e mensagens de texto. Um investimento que leva algum tempo e assuntos em comum.

Mesmo hoje, num mundo onde o sexo alcançou seu merecido status de prazer ainda possivelmente separado de afeto, ainda existe espaço para o romantismo.

Pode parecer que não, mas quando afim um homem valoriza sim a evolução natural de um relacionamento. Do primeiro beijo ao primeiro malho que abre botões - nem que tenham acontecido na mesma noite.

É completamente atemporal. Por ser tão bom, tão íntimo e tão desejado, para o homem o importante é que o sexo tenha a sensação de merecido, de conquistado, de que ele não foi mais um. Sejam em horas, semanas ou 500 dias com ela (mentira: 500 dias além de um filme, é muito. Mesmo.)

Mais que ser “rápido”, o sexo não pode ser “fácil”. Um sexo fácil demais pode fazer esse bolo não ter o mesmo sabor. Ou se for pra ter um sabor, somente o gosto daquela cereja que vai no topo. Gostoso, mas enjoativo e facilmente substituível por outra mais tenra e vermelha.

O fato é que não existe regra ou cartilha a ser seguida para acertar a hora de esticar os braços e apertar o interruptor enquanto beija. Seguir algum padrão para o amor – ou o princípio dele - só leva a outro: o fracasso.

Por isso, se a vibe, o clima, o momento, ou tudo mais que confluir para dar a certeza que o melhor a fazer é fechar a conta e subir do elevador às nuvens, que aconteça. Sem dúvida é o melhor a ser feito.

No final, o importante é fazer o tal bolo chegar à mesa e ser sempre, a melhor das sobremesas.

domingo, 13 de dezembro de 2009

A Conquista




















Já era tarde no domingo quando a plaquinha do MSN subiu e anunciou uma substituição na minha caixa de e-mail.

A mensagem que li em seguida foi o relato de algo ocorrido também já tarde, em um sábado qualquer. O autor preferiu o anonimato. O campineiro aqui preferiu a inspiração - a maior lição dessa história.

Com vocês, copiado e colado, o dito e-mail:



"Diz o sábio chinês que 'uma longa jornada começa com um único passo'.

Ela não era chinesa, mas tinha um par de olhos meio puxadinhos que merecia um 'muito obrigado' ao bisavô que primeiro pisou do seu navio no porto de Santos.

De uma festa sem grandes expectativas, fruto de um convite feito num telefonema atendido no último toque antes do 'ligação perdida', estava a minha frente a mulher mais escultural que meus olhos ocidentais já tinham visto.

O orgulho de ser brasileiro enchia meu peito enquanto acompanhava as suaves curvas de uma miscigenação bem feita, olhando cada detalhe mais discreto que um elefante em loja de louça ou que um rapaz solteiro de palavras já soltas pela cerveja.

E o mesmo ar que inflava meu peito de orgulho tupiniquim chegou como uma frente fria no estômago. Lá estava ela, encostada no bar, sem uma amiga, acompanhada somente de sua magnética gostosura.

Uma olhada discreta, de canto de olho. Indecifrável. Fui notado, pego balançando a bandeira do meu interesse. A hora era agora. Cada bebericada acompanhava a respiração, como que a buscar coragem a cada gole. A bebida? Desejo e insegurança, shaken, not stirred.

Desafiado pelo seu olhar de canto, deixei o copo no balcão e esbocei um passo. Sensação de cobrança de pênalti. De estádio cheio gritando em coro pelo meu nome. Incentivando entre rojões um chute forte e rasteiro, indefensável no canto direito e iluminado entre milhares de flashes cintilando da torcida. Um oi e um sorriso de volta. Um único –

- Boa ela né? Vai lá falar com ela cara! – como o companheiro de time, o amigo bêbado aparece para encorajar.

As pernas estancaram na marca do pênalti.

- Vai lá, to falando. Tá na sua.

E fui. Lado a lado no balcão do bar, um oi sai engasgado. Um meio sorriso, simpático mas curto, é dado em resposta, seguido por um diálogo enferrujado como uma Brasília de ferro-velho. Nome, profissão, o curriculum vitae de uma entrevista para a vaga de beijo ou mais da noite.

- Vou ao banheiro.

E assim, seca, ela se foi. Uma frase que selou minha derrota. Minha tristeza. Meu fim.

- Eai meninãão! – O bêbado reaparece, com o rosto vermelho como a marca do uisque que fazia titilar os cubos de gelo do seu copo largo e baixo.

- Ela foi embora.

- Como assim? – o sorriso deu lugar a uma série convicção. E continuou- Eu conheço ela cara. Amiga da minha namorada, trabalham juntas. E quer você. Perguntou de você pra Claudinha na hora que você pisou, seu puto.

- Sério? – Disse isso com um sério sorriso bobo.

- É caramba! Larga de ser cagão e vai logo. É só ir lá pronto, sem erro.

E saiu rindo de minha falta de atitude, como se nunca tivesse passado por isso antes. Com a modéstia de quem sabe que no dos outros é refresco.

Ao longe, lá estava o banheiro, com sua porta vai-vem e sua placa com um bonequinho de saia triangular. Não respirei fundo ou virei uma dose, tudo que havia para entornar goela adentro e fazer uma careta era meu orgulho. Minha auto-estima, minha certeza que vou sim conseguir o que queria. E agora.

Um corredor estreito levava até a porta, de onde mulheres em pares (sempre em pares) saíam de maquiagem e fofocas retocadas. E de lá ela saiu, acompanhada de tudo que deixa um homem a pulsar de desejo: cabelos, decote, olhos e charme, muito charme.

Ela me viu e caminhou – ou desfilou – pelo corredor. Dei um passo, um pequeno passo a frente, bloqueando seu caminho, sem descolar os lábios mas dizendo tudo com um meio sorriso, ridículo quando refletido num espelho. Sozinha, a mão direita enlaçou sua cintura.

Com um tenro beijo de despedida, ela bate a porta do carro e sobe um lance de escadas, carregando seus sapatos na ponta das dedos. Vira-se para trás, sorri, e desaparece entre o jardim da entrada do seu prédio. O mesmo prédio que estacionaria muitas vezes depois. Para um cinema, para uma viagem, para um passeio de elevador até o 12o andar.

Longe dali, um bêbado sonolento atendeu o telefonema no último toque antes do 'ligação perdida'

- Cara, valeu pela dica. Ela é sensacional! Linda, engraçada, gente boa… Obrigado, Muito -

- Eu nunca tinha visto ela na minha vida. – O seu sorriso saía sonoro pelo celular.

– Nem conhecia! Isso é pra você largar de ser besta, pra tentar, pra aprender a dar pelo menos um passo, sempre.


Eu aprendi."

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Pouco Mais de 500 Caracteres Sobre Um Filme
















O autor adverte: é bom você ter visto o filme antes. ; )


Quando mais de 3 pessoas te sugerem ver um filme “por que ele é a sua cara” ou “certeza que você vai curtir, cara” é por que tem coisa. E o 500 Dias Com Ela tem. Foi 1 uma hora e meia com Fábio Lattes que me valeram sentar para escrever estas singelas palavras de semelhança. Isso mesmo, semelhança. Isto não é uma resenha, uma crítica de cinema. Me falta muito feijão e Fellini para ser uma Renatinha ou um Chammezito para analisar um filme com catiguria. São simples paralelos que notei e tracei em verdana 11.

Começando pelo óbvio: o personagem principal é um redator. Ok, redator de cartões de presente, desses que por aqui os do Garfield imperam. Mas redator. E segundo, a mais óbvia semelhança: o filme fala de relacionamentos. Tema que quase não gosto e que quase que esta tonta ironia correu o risco de ser apagada.

A primeira coisa que me faz pensar é o quanto os problemas dos jovens de seus 20 em diante são comuns, seja lá onde do mundo ele mora. Da rotina do trabalho, o conclave conselheiro dos amigos, aos dias azuis e cinzas de um relacionamento, é tudo muito parecido. A facilidade que nos identificamos com o desenrolar do romance entre os dois é o ponto chave do quanto ele nos envolve.

O fato é que se sentir como o personagem é a premissa de toda boa história. Mas quando ele tira os empoeirados rolos de filmes dos seus términos e começos e projeta filmes no cine-nostalgia do seu cérebro, o poder de identificação triplica.

E é assim com esse filme. Você se vê nele, e não precisa ser um redator com experiências passadas nas costas. Principalmente na vulnerabilidade do personagem principal, tão entregue aos caprichos de uma pequena com vestidinhos meigos. Naquela tonta vulnerabilidade que o amor provoca. Você se vê como aquele mané, capacho, bobo e com o seu sobrenome em julho de 2007.

O filme trabalha com sensações que todos nos passamos e degustamos, sejam doces ou amargas.

Quando você vê que o relacionamento está indo para o saco e não há nada o que fazer, há não ser pedir panquecas e esperar pela cobertura de lágrimas.

Quando você substitui o som pelo tato que também saem dos lábios, beijando cada centímetro de um corpo que você deseja por dentro e por fora. Nos seus 500 dias, depois dessa noite nosso herói dança pelas ruas num musical. Se rodado no Brasil, ele faria um gol aos 45, no estádio lotado, explodindo rojões e disparando pontilhados de flashes para uma torcida ensandecida.

O sentimento é o mesmo, só muda o cenário.

Os 500 dias encerram com a mensagem certa, longe do final que encaminha o casal para um anúncio de margarina. Uma esperança pé no chão, que mostra que o amor verdadeiro é tudo nessa vida, menos simples.

Estamos longe de um final feliz, mas sempre perto de ótimos começos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Mulher Kriptonita










O cara é de aço. Tem olhos com laser que abrem buracos em paredes e uma visão raio-x para passar por roupas e conferir conjuntos de lingeries. Zunindo pelos ares, ele rasga céus de brigadeiro abrindo caminho entre granulados de nuvens. Salva o mundo como quem confirma presença numa reunião pelo outlook, e ainda faz tudo isso vestindo um colant azul e uma sunga vermelha por cima.

E mesmo assim, tão super que é, pode perder todos seus poderes com uma mísera pedra esverdeada lá do seu planeta. É deixar uma pedrinha dessas por perto que nosso heroí não voa, não ergue carros, não salva o dia se trocando em cabines telefônicas.

Pois é assim com homens. Não importa se é o mais sangue frio dos conquistadores modernos, que gerencia suas mulheres como um executivo administra um negócio, daqueles que demitem sem dó um pai de família. Um e-mail bonito ali, uma graça via SMS aqui, um telefonema com um gracejo acolá e pimba: usufruem uma lista de mulheres a espera de um telefone no dia seguinte, que provavelmente será substituído com uma ligação para a próxima conquista.

Recados de batom no espelho, surpresas com dias de planejamento, declarações sussuradas no ouvido... Nada e ninguém os balança ou induz a qualquer erro comum a um apaixonado. Ninguém, há não ser uma pessoa: a mulher kriptonita.

Todo homem, sem exceção, tem pelo menos uma mulher que mexe com seus sentidos e bambeia suas pernas quando aparecem, seja numa moldura de MSN ou ao vivo e a cores numa quinta a noite. Uma ex-namorada, uma paixão platônica, um caso mal resolvido que para todo sempre ficou marcado num coração que parece de pedra.

Elas são atemporais. Não importa se foi num baile de debutante, com ela indo embora da sua vida e da festa no carro de um primo mais velho. O tempo perde feio para a intensidade de um amor que um dia acertou em cheio. O reencontro pode acontecer 10, 20 anos depois. Será a mesma sensação quando ele se viu pela primeira vez completamente rendido por sua paixão.

A presença da sua kriponita faz um homem perder tudo que a vida amorosa até então lhe ensinou, todo seu encanto ensaiado, seu tão acertivo charme de sempre parecer que não se importa, com um sorriso misterioso. Tudo vai por água abaixo, como as lágrimas que um dia rolaram pelo seu rosto, justamente por ela.

A mulher kriptonita sabe do seu encanto. Do seu poder. Sabem – ou sentem - que tem total controle, como um marionete tem dos seus bonecos. E qualquer tentativa de disfarçar só deixa mais claro que ele se altera com sua presença. Aparecem para nos testar, para por a prova nosso poder de regeneração quanto a pior das dores – a de um coração partido.

Elas estão por aí, nas esquinas da vida. Como a última barreira, o último vilão que todo homem (super ou não) precisa vencer para mais uma vez ser o heroí do dia e salvar o mundo.

O seu mundo.