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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Reencontro


O que mais eu precisava comprar mesmo? Ah é, shampoo. Misturar com água tem limite também, não tava fazendo nem espuma mais. Pronto, acho que é isso. Shampoo, desodorante e um Gillete novo.

Opa, levando 6 ganha desconto? Vai seis então. Foda que esse Dove derrete. Malditos. Certeza que é de propósito. Mas o cheiro é bom. Melhor que aquele Phebo, que tem cheiro de véia.

Cacete. É ela. Não é possível. É ela mesmo? R$11,90 num barbeador? Tá louco, que facada. Esse é bem mais barato e faz a mesma coi-agora dá pra ter certeza. É ela mesmo. Caramba, como ela tá bonita. Cortou o cabelo curtinho, ficou animal. Tá com cara de mulher. Mulherão. Mas o jeito continua o mesmo. Aposto que vai ficar 3 horas decidindo entre a escova de dentes com o melhor custo-benefício. Coçar a cabeça, inclinando um pouquinho. E com uma resmungada pro preço, vai levar a Oral B de sempre.

Cadê o maridão pra falar para levar logo qualquer um? Deve ter divorciado então. Mulher assim não fica sozinha.

Há! Sabia. Levou a Oral B. Engraçado, nunca vi farmácia usar lâmpada quente, sempre esses tubos de luz fria para iluminar remédios e lá vai ela pegar o pacote amarelo. Always. Aí de mim se fosse outro, sem ser com “malha seca”.

Ué, levou outro. É, ela mudou mesmo. Eu que continuo igual. O azarado de sempre. Vestindo a camiseta mais furada do armário, respingada de molho de tomate e com um chinelo mastigado por um bulldog descontrolado. Será que ela lembraria do Milton? Bom, talvez sim. Mentalmente ele continua um filhote.

Não dá pra ir dar oi assim. Se ao menos eu soubesse... Bom, se eu soubesse muita coisa na vida seria diferente. Depois eu tento pegar o contato. O e-mail ainda tenho. Um chopp um dia desses, pra por o papo em dia. Ou não também. Tivemos nossa chance. Quer saber? Vou aproveitar que ela está entretida no balcão de remédios e sumir na bomba ninja.

Cacete, tô sem dinheiro vivo. Isso mesmo moça, rápido e no débito. Vai, cacete. Cartão Raia, CPF na nota, sacolinha, nada disso. Vamo VISA, ajude um amigo em apuros. Não peço muito. Só quero que a compra passe e eu passe despercebido.

É pegadinha, não é possível. Máquina discando? Merda. Acho que ela me viu. Ela tá vindo pra cá. Fudeu. Ahhh, agora me sai o papelzinho. Bela hora. Pronto, chegou.

- Amor, por que você já passou suas compras? Esperava a minha, né. A gente já tá atrasado.

Depois disso, por que ela pegou na minha mão com tanta naturalidade, eu juro que não sei.


quinta-feira, 17 de março de 2011

Muito Além de Piracicaba



Um sábio filósofo disse certa vez: “tios te preparam para a vida”.

E disso nosso jovem Luiz Augusto sabia, e muito bem. Afinal, sua criação foi marcada pela traquina presença de tio Valdir, um exímio pentelho que a feliz condição de irmão da mãe permitia.

Valdir era um tiozão clássico.

Mal Luiz mal completou 7 anos e já tinha dedos indicadores molhados de saliva cutucando seus ouvidos, passando pela adolescência com esmagadas no aperto de mão. Os anos seguintes colocaram a criatividade de Valdir à prova. E ele não decepcionou em nenhuma oportunidade. Aos 17 anos, as brincadeiras culminaram em encabulantes demonstrações de orgulho.

“Mostra o pintão pro tio, mostra!”. Bradava um avermelhado tio Valdir, no almoço que a família conheceu sua primeira namoradinha.

Mas nem o mais sábio dos filósofos preparara Luiz Augusto para aquele momento. Lá estava nosso herói, na mesa do almoço de sua primeira viagem com a família da namorada. Por ironia do destino, no interior paulista, na belíssima cidade de Piracicaba.

Mas dessa vez, o jogo tinha virado. A vergonha de recém chegado tinha se dissipado. Luiz Augusto sentia-se confiante. Afinal, havia transposto com ginga e talento a temida barreira da receptividade do sogro.

Logo antes de tomarem seus lugares na singela mesa de 18 lugares, Letícia o avisou de um fato com os olhos arregalados de receio. O alerta era para um certo tio, tido como “brincalhão e muito sem noção”. Mas Luiz deu ombros. E respondeu com um meio sorriso, entre ousado e confiante:

- Fui treinado pelos melhores, meu bem.

Disse isso e justamente ele, a lenda, puxou uma cadeira e sentou ao seu lado, cumprimentando-o com um sorriso de lábios colados. Letícia estremeceu. Luiz Augusto manteve a compostura. Mas não sem deixar de engolir sua saliva, em seco.

A mesa servia um verdadeiro banquete. Leitão à pururuca, purê de polenta e para completar, uma vaporosa travessa de rabada. Os diálogos corriam bem, pontuados por trivialidades. Até que ele, o legendário tio Gera, soltou sua primeira pergunta revezando o olhar entre Letícia e o marinheiro na primeira viagem com sua família.

- Lelê minha querida… Você está diferente. O que você fez?

Letícia olhou para seu prato e respirou fundo. Conhecia o seu tio. Era uma escada para sua piada, sabia que era. Tentou desconversar. Os primos se cutucaram com as costas nas mãos, nem se esforçando para esconder a animação.

A sobremesa tinha chegado mais cedo.

Letícia respondeu:

- Ah tio… Nada não. Estou a mesma, ué. – E deu um sorriso amarelo como a polenta no seu prato.

Sônia, esposa do conhecido tio Gera, enviava bolas de fogos por olhares de repreensão. Sinais claros de “Geraldo, para de graça JÁ!”. Mas se ela bem conhecia seu homem, sabia que nem atravessando um garfo por sua mão ele perderia a piada.

- Não… Não sei. – Gera semi cerrou os olhos, pensativo - Você tá mais… Mais mulher. Está muito bonita!

E com esse “bonita”, Luiz recebeu uma olhada de canto do olho que gelou seus ossos. Estava chegando sua vez de ser jogado ao fogo da vergonha. Tinha certeza disso. O rapaz respirou fundo, fechou os olhos e lembrou dos ensinamentos do mestre Valdir.

A família já começava a suspeitar até onde tio Gera queria chegar. O silêncio na mesa era total, só cortado pela tensa apreensão pelo seu desfecho. Até que Letícia, num gesto ousado, tentou pegar no pulo o famoso Geraldo Albuquerque. E disse firme:

- É que eu coloquei silicone nos peitos, tio. É por isso.

Nem ele esperava por isso. Nunca na história de um almoço da família tantos olhares foram trocados simultaneamente. E Sônia, em uma tentativa desesperada, tentou mudar de assunto:

- Gente, alguém acaba com esse purê vai.

A frase ficou jogada no vazio. Podia ser um purê feito a quatro mãos por Jamie Oliver e Claude Trogois, a resposta do tio Gera era muito mais esperada. E para a surpresa de todos, não respondeu para Letícia.

Sem uma gota de constrangimento ou sinal de surpresa pelo desafio repentino, Gera direcionou o olhar para seu irmão.

- Beto, me diga uma coisa. Quanto que custa uma cirurgia dessas?

- Ah Geraldo, já chega. Brincadeira tem limite!

Sônia perdeu a paciência com seu marido. Estava envergonhando a menina, ainda mais na frente da visita. Que grosseria! Raivosa, só a distância a impedia de usar seu garfo para outro propósito.

Malandro, Geraldo fingiu indignação.

- Mas não é brincadeira, Soninha. Só queria saber, ué! Coisa mais normal do mundo. Qual o problema? – Virou para seu irmão, e reforçou. – Sai por quanto hein Betão, uns 3 mil?

Encabulado, o sogro de Luiz Augusto respondeu com disfarçada naturalidade.

- Ah… Custou 4 mil, por aí.

Tio Gera encenou um espanto maior do que realmente sentiu. Estava chegando ao clímax do seu ato.

- Caramba! Quatro mil reais?

Olhou em volta, fisgando de vez os olhares de todos os convivas e sustentando o olhar em Luiz Augusto por pouco mais de longos 3 segundos.

E com tapões repetidos nas costas do rapaz, arrematou:

- Quatro mil reais… 4 mil reais pro meninão aqui brincar!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Casamento





















Orgulhoso, Gilberto revezava o olhar entre seus três filhos sentados pela sua sala. Não conseguia esconder um sorriso de dever cumprido ao observá-los. Tinham se tornado jovens adultos de caráter, trabalhadores e principalmente, pessoas de bem. Era isso. Aos 56 anos, tinha a feliz certeza de ter colocado no mundo pessoas de bem.


Mas aquela reunião de família não era para lamber cria. Tinha um propósito claro, um mistério o qual os três filhos aguardavam ansiosamente sua revelação: um inusitado convite “para uma conversa” em plena terça a noite.


E seguido do tintilhar da xícara no pires, ele anunciou.


- Bom crianças. Vamos direto ao ponto: vou me casar.


Silêncio. Sobrancelhas franzidas. Primeiro a digerir a informação, o caçula Pedro Henrique expressou sua surpresa com o estalar dos ovos que pisava.


- Puxa pai... Que ótimo! Já faz tanto que você e a mãe se separaram mesmo. Acho legal mesmo, de verdade. Mas...


- Mas com quem?? Você nem namora pai! – como um vulcão, a pergunta irrompeu de uma perplexa Mariana, filha do meio.


Com um sorriso maroto, o primogênito Felipe completou, orgulhoso:


- É a tia Regina né pai? Sempre suspeitei do que vi em Ilha Bela aquela vez. Tinha 11 anos mas não esqueço! Sempre suspeitei, seu malandro...


Gilberto escutava seus filhos com um sorriso sereno. E sem tirá-lo do rosto, continuou:


- Vou me casar com o Carlão, meu amigo do clube.


O sorriso maroto de Felipe se transformou numa expressão de choque. Atônito, o queixo de Pedro Henrique desmanchou no seu peito, sem vida. Se descontasse os olhos arregalados e a cor branco-sulfite de seu rosto, seria possível dizer que Mari era a menos impressionada. E logo perguntou:


- Pai, você é viado?


O patriarca suspirou serenidade. Já esperava por tal fatídica pergunta. Respondeu com a tranquilidade de um Dalai Lama, certo de sua decisão.


- Não filha, não sou. Sou hétero, como sempre fui. – respirou fundo, e continuou. – Acontece que nos últimos anos vinha me sentindo muito sozinho. Essa casa grande, vocês seguindo suas vidas... E queria uma companheira.


- Companheira pai! Companheira! Não um tiozão do clube! – Pelo ângulo de arqueamento de suas sobrancelhas, Felipe entregava seu desespero.


Mas somente com o olhar, Gilberto pediu calma. Continuou:


- Mas a experiência que tive com sua mãe e todas que seguiram dela só me mostraram que a convivência com uma mulher é insustentável. Vocês me conhecem, sou engenheiro, racional em tudo. E salvo o fator “sexo” e “carinho”, meu casamento com o Carlão tem tudo pra dar certo.


Os três se entreolharam. Esperança de ser uma pegadinha. Ou uma piada besta de um pai que nunca foi de muita graça.


- Me escutem e verão como faz sentido. Casado com Carlão terei todas as vantagens de um matrimônio feliz. O que nunca tive com sua mãe ou mulher nenhuma na minha vida. Poderei deixar cuecas pela sala. Esquecer datas e a existência da TPM. Comer pizza com cerveja numa segunda por que é bom e meu colesterol respeita isso.


- Pai, você enlouqueceu! O que vão falar na família, no seu trabalho?


Gilberto se animou. As perguntas só lhe davam mais certeza da sua escolha.


- Vão falar que nunca estive tão sensato na minha vida! Você fala de trabalho. Pois então. Esses dias cheguei em casa bêbado, cantarolante e com um perfume doce na gola da camisa. Errei, confesso. Sabe o que o Carlão fez? Sabem??


- Não pai, não sei. – Desconsolado, o primogênito só respondia com as mãos no rosto.


- Ele simplesmente me olhou, sorriu e disse: “era boa?”. “ERA BOA?”. Nada de pratos voando, noites na dureza do sofá, nada!


- Mas pai, então você quer um amigo. É isso! Só um amigo, um roomate.


- Não Mari. Quero um esposo. Alguém para chamar de meu. Para me receber em casa depois de um dia cheio com uma long neck gelada e comentários pertinentes sobre a última rodada. Reclamações? Só sobre o frangueiro do goleiro.


A cada resposta, Gilberto se empolgava ainda mais com seu plano perfeito.


- A TV não conhecerá uma novela. Dane-se quem matou quem! Na nossa casa, a louça poderá sim repousar feliz na pia por uns dias. Meu carro não aparecerá ralado, não existirão cremes além do de barbear na pia. E por falar de pia e banheiro, a tampa estará sempre levantada. Sem broncas. Sem cobranças. Sem...


- Pai! – o caçula perdera a paciência – Olha aqui. Se você não se descobriu gay, o que aliás aceitamos numa boa, você enlouqueceu. Ficou velho e maluco! Simples assim.


- Bom, pelo visto vocês não entenderam nada do que eu disse. E se não quiserem também, tudo bem.


Gilberto se levantou, entre orgulhoso e decidido.


- Eu vou embora. Podem ficar a vontade, a casa é de vocês. Mas eu tenho um compromisso. Combinamos há semanas de assistir a semi-final da Champions League e não posso me atrasar para o começo do jogo.



quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Namoro





















É fato. Textos românticos que começam com citação de dicionário são manjados, superficiais e mela cueca como o teclado de uma música do Bon Jovi.

Mas como eu tenho o mérito da ousadia, visto que dei um título desses a essas singelas linhas que tenho o prazer de ter seus olhos a segui-las, vejamos o que o Aurélio tem a dizer sobre “namoro”.


na.mo.ro

sm (der regressiva de namorar) 1 Ato de namorar. 2 Galanteio. 3 O namorado ou a namorada.

Certo. Realmente não foi a definição mais esclarecedora do mundo. Mas isso só me ajuda a tentar criar a minha versão sobre o que este título implica e significa na vida de uma pessoa.

Primeiro. Por que as pessoas namoram? Antigamente era claro. O namoro era simplesmente uma ante-sala para o casório. Aliás, nos tempos do meu e do seu bisavô o item número 2 da definição acima era de fato feito na sala, com a companhia vigilante da futura sogra em um sofá por perto.

Hoje, este objetivo ainda existe. Mas como algo distante, longe, deixado para pensar depois com uma conta bancária razoável ou a certeza que o matrimônio valha outra tentativa. A prioridade é ser feliz, e agora. Namora-se por que você simplesmente gosta de quem você escolheu depositar todo seu afeto.

Mas será que é tão simples assim?

Surge então uma inevitável pergunta: com a desobrigação do casamento em cada namoro e um vasto mundo de oportunidades para solteiros e solteiras se lambuzarem no mel da conquista, por que as pessoas ainda escolhem o doloroso risco de ter seu coração partido? Afinal, a vida em voo solo está aí, com todas as vantagens da liberdade de fazer e pegar quem bem entende.

O “affair” da revista Caras, o “ficante” da revista Capricho, o “fuck friend” da revista Nova só mostram o quão normal e corriqueiro o romance sem compromisso está. Uma fase de “curtir a vida” é bem vinda, e valorizada. Dá para viver muito bem saindo para onde quiser e sem número certo para boa parte dos nossos telefonemas.


Na teoria, é possível preencher toda nossa inerente carência por cafunés sob o cobertor e mensagens de texto lidas com um sorriso visitando tudo que nos apetece no cardápio. Satisfazendo-se com romances simples e apetitosos como um macarrão carbonara.

Na teoria. Pois na prática, quando chega a frechada do cupido ou o tiro acerta o Álvaro, entra em vigor um antigo ditado sertanejo: “cavalo selado não passa mai de uma veiz”. O recém contraído frio na barriga é acompanhado de um leve e intuitivo desespero, de algo que lhe diz que se você deixar esse potro passar vai ver embora com a poeira na estrada uma baita chance de ser feliz. Ou pelo menos viver assombrado com a dúvida do que seria um passeio a galope.

E esse imprevisível senso de urgência é o primeiro sintoma da paixão - a faísca que começa namoros. Coisa que depois, aos poucos, vai virando algo maior que nem eu, você, ou fogo que arde sem se ver consegue definir.


domingo, 13 de dezembro de 2009

A Conquista




















Já era tarde no domingo quando a plaquinha do MSN subiu e anunciou uma substituição na minha caixa de e-mail.

A mensagem que li em seguida foi o relato de algo ocorrido também já tarde, em um sábado qualquer. O autor preferiu o anonimato. O campineiro aqui preferiu a inspiração - a maior lição dessa história.

Com vocês, copiado e colado, o dito e-mail:



"Diz o sábio chinês que 'uma longa jornada começa com um único passo'.

Ela não era chinesa, mas tinha um par de olhos meio puxadinhos que merecia um 'muito obrigado' ao bisavô que primeiro pisou do seu navio no porto de Santos.

De uma festa sem grandes expectativas, fruto de um convite feito num telefonema atendido no último toque antes do 'ligação perdida', estava a minha frente a mulher mais escultural que meus olhos ocidentais já tinham visto.

O orgulho de ser brasileiro enchia meu peito enquanto acompanhava as suaves curvas de uma miscigenação bem feita, olhando cada detalhe mais discreto que um elefante em loja de louça ou que um rapaz solteiro de palavras já soltas pela cerveja.

E o mesmo ar que inflava meu peito de orgulho tupiniquim chegou como uma frente fria no estômago. Lá estava ela, encostada no bar, sem uma amiga, acompanhada somente de sua magnética gostosura.

Uma olhada discreta, de canto de olho. Indecifrável. Fui notado, pego balançando a bandeira do meu interesse. A hora era agora. Cada bebericada acompanhava a respiração, como que a buscar coragem a cada gole. A bebida? Desejo e insegurança, shaken, not stirred.

Desafiado pelo seu olhar de canto, deixei o copo no balcão e esbocei um passo. Sensação de cobrança de pênalti. De estádio cheio gritando em coro pelo meu nome. Incentivando entre rojões um chute forte e rasteiro, indefensável no canto direito e iluminado entre milhares de flashes cintilando da torcida. Um oi e um sorriso de volta. Um único –

- Boa ela né? Vai lá falar com ela cara! – como o companheiro de time, o amigo bêbado aparece para encorajar.

As pernas estancaram na marca do pênalti.

- Vai lá, to falando. Tá na sua.

E fui. Lado a lado no balcão do bar, um oi sai engasgado. Um meio sorriso, simpático mas curto, é dado em resposta, seguido por um diálogo enferrujado como uma Brasília de ferro-velho. Nome, profissão, o curriculum vitae de uma entrevista para a vaga de beijo ou mais da noite.

- Vou ao banheiro.

E assim, seca, ela se foi. Uma frase que selou minha derrota. Minha tristeza. Meu fim.

- Eai meninãão! – O bêbado reaparece, com o rosto vermelho como a marca do uisque que fazia titilar os cubos de gelo do seu copo largo e baixo.

- Ela foi embora.

- Como assim? – o sorriso deu lugar a uma série convicção. E continuou- Eu conheço ela cara. Amiga da minha namorada, trabalham juntas. E quer você. Perguntou de você pra Claudinha na hora que você pisou, seu puto.

- Sério? – Disse isso com um sério sorriso bobo.

- É caramba! Larga de ser cagão e vai logo. É só ir lá pronto, sem erro.

E saiu rindo de minha falta de atitude, como se nunca tivesse passado por isso antes. Com a modéstia de quem sabe que no dos outros é refresco.

Ao longe, lá estava o banheiro, com sua porta vai-vem e sua placa com um bonequinho de saia triangular. Não respirei fundo ou virei uma dose, tudo que havia para entornar goela adentro e fazer uma careta era meu orgulho. Minha auto-estima, minha certeza que vou sim conseguir o que queria. E agora.

Um corredor estreito levava até a porta, de onde mulheres em pares (sempre em pares) saíam de maquiagem e fofocas retocadas. E de lá ela saiu, acompanhada de tudo que deixa um homem a pulsar de desejo: cabelos, decote, olhos e charme, muito charme.

Ela me viu e caminhou – ou desfilou – pelo corredor. Dei um passo, um pequeno passo a frente, bloqueando seu caminho, sem descolar os lábios mas dizendo tudo com um meio sorriso, ridículo quando refletido num espelho. Sozinha, a mão direita enlaçou sua cintura.

Com um tenro beijo de despedida, ela bate a porta do carro e sobe um lance de escadas, carregando seus sapatos na ponta das dedos. Vira-se para trás, sorri, e desaparece entre o jardim da entrada do seu prédio. O mesmo prédio que estacionaria muitas vezes depois. Para um cinema, para uma viagem, para um passeio de elevador até o 12o andar.

Longe dali, um bêbado sonolento atendeu o telefonema no último toque antes do 'ligação perdida'

- Cara, valeu pela dica. Ela é sensacional! Linda, engraçada, gente boa… Obrigado, Muito -

- Eu nunca tinha visto ela na minha vida. – O seu sorriso saía sonoro pelo celular.

– Nem conhecia! Isso é pra você largar de ser besta, pra tentar, pra aprender a dar pelo menos um passo, sempre.


Eu aprendi."

domingo, 29 de novembro de 2009

Amizade




















Nos idos de 1990 você cantou em falsete - que eu sei - a seguinte canção: “Amiiiiigo é coisa pra se guardaaar, no lado esquerdo do peeeeito”.

Terminado o coral com o sinal de gralha eletrônica que anunciou o recreio, você e o coleguinha ao lado saíram em disparada para mais uma tarde correndo atrás de bolas de futebol e o galho mais alto da árvore. Pronto. Estava instaurado o primeiro caso de amizade nessa vida que dava seus primeiros passos, muito possivelmente calçando ki-chute. Independente do tênis ou se você era menina e gostava de bonecas, uma coisa é certa: a tia da sua escola acertou em cheio ao fazê-lo cantar este belo verso do Milton Nascimento.

Que graça teria essa vida sem amigos? A testemunha ocular dos seus momentos, melhores ou não. O ombro ao lado que sai junto na foto e confirma histórias para contar de cerveja no copo ou neto no colo. Um cúmplice na cola do colégio e na indicação para um emprego. Definições são muitas, mas nada resume melhor o valor de uma amizade do que a seguinte epifania cinematográfica, do filme Na Natureza Selvagem:

“Happiness only real when shared”.

Chame de instinto, de carência, de uma evolução do infantil medo de escuro, mas é de nossa índole querer ter alguém para compartilhar experiências nessa vida que parece ser eterna enquanto dura. Ou você realmente acha que premiações “com acompanhante e tudo pago” estão a toa por aí? São provas concretas, estampadas em cupons de sorteio pelo mundo afora. Levar um amigo na aventura é uma exigência tão clara quanto querer que o carro venha com volante.

E assim como o jeito para se manobrar numa baliza, homens e mulheres levam suas amizades de maneiras diferentes. Ao descascar a cebola e separar as camadas entre os sexos, encontramos disparidades entre a turma “dos cara” e as “meninas” (fato: mesmo que tenha 78 anos bem vividos, uma mulher sempre irá se referir às suas amigas como as “meninas”).

É uma diferença que vem de fábrica, junto com os cromossomos e a opção de ou usar sutiã ou ficar entre rouco e estridente quando chega a puberdade. E como um exemplar da metade que viveu a fase da voz estranha e das Playboys escondidas na gaveta das camisas de time, compartilho em parágrafos a seguinte opinião.

O homem nasce, cresce, simula que se reproduz e acha que vê a morte no fundo de um vaso sanitário, depois de um exagero de destilados em alguma festa open bar. E em todo esse processo, lá está ele, o seu amigo. O parceiro. (o termo “brother” veio mais tarde, com a chegada dos surfistas de final de semana aos círculos de amizade). O cara que te acompanhou na festa, conversou com a amiga exclusivamente “gente boa” para lhe dar tempo de tentar algo com o seu bem-querer. E por fim, lhe consolou sugerindo afogar as mágoas, fechando o ciclo ao te apresentar para a privada mais próxima.

Para o homem a amizade é uma instituição tão sagrada quanto a turma que ele almoça junto de domingo. E se o domingo tem data, o resto da semana tem outra: a cerveja com os amigos. Tão obrigatória quanto depilação íntima e felizmente muito menos dolorosa – coisa que somos mais meninas que muita mulher para suportar.

A mesa do bar é um divã de plástico amarelo. Fala-se sobre tudo, peitos são abertos entre rodadas e rodadas do gelado liquido dourado. As chances de aumento, os colegas de trabalho que pegariam com toda certeza do mundo. As atualidades do mundo, quem posou pelada – e se vale conferir. E por fim, as notícias do futebol, boêmia adentro.

Mulheres também se reúnem, claro. Armam happy hours e “girls night out” com sessões de roupa e maquiagem na casa de uma, sujando coqueleteiras e liquidificadores com mojitos e batidas perigosamente saborosas. Mas não com tanta frequência e, principalmente, não atribuindo tanto valor ao encontro quanto o homem.

E é aí que – penso eu – mora a principal diferença entre as amizades. Que fique bem claro: mulheres também tem suas irmãs, suas melhores amigas e parceiras de guerra. Mas não constroem o mesmo altar da amizade que os homens, com um São Beto ou um São Pedrão para ser devoto.

Um melhor amigo para o homem beira um estranho homossexualismo enrustido. Com tapas na bunda, socos no ombro e xingamentos à mãe entre um único aperto de mão. Chegam a declarar saudades. A darem bronca. Vivem um verdadeiro romance entre brothers – o chamado “bromance” definido no ótimo Eu Te Amo, Cara.

São sagrados. Condição que se estende às suas namoradas e senhoras. É fato: a namorada de um grande amigo desenvolve um pênis no momento que ele declara que por ela penduraria suas long necks. O amigo pode achar gostosa, atraente, chega a compartilhar essa informação. Mas a traição desse valioso pacto é uma atitude mais mal-vista que encoxar a mãe na fila da hóstia.

Está escrito na página 12 do “Manual do Melhor Amigo”: o homem que pegar a namorada do outro vestirá para a turma toda a mini saia rosa da hostilidade.

Outra ressalva: mulheres também respeitam o namorado alheio. Mas pela ausência do referido Altar Masculino à Amizade, são mais dispostas a esquecer essa condição quando o coração manda ou a carne estremece. O grande Chris Rock exemplificou isso muito bem com duas citações:

- “Puxa a namorada do meu amigo é sensacional. Bonita, gente fina... Quero achar alguém que nem ela!”
- “Nossa... O namorado da minha amiga é sensacional. Bonitão, gente fina... Quero ELE!”

Talvez seja a competitividade feminina, o fato de vestirem-se para outras mais que para agradar outros. Ou a ausência do assunto “futebol” para quebrar gelos e transpor barreiras entre o nome e o apelido. Mas mulheres primeiro se encaram como rivais, para depois tornarem-se colegas, e possivelmente, amigas.

Para um homem, do plantio à colheita a amizade parece ser mais fácil de dar algum fruto. Preferencialmente cítrico e verde, para ser cortado na tábua ao lado da churrasqueira.

O fato é que para saborear os doces e amargos desse doido drink chamado vida, a amizade tem sem dúvida a mesma importância que o amor. Por isso, homem ou mulher, o segredo é ter sempre borboletas no estômago e nos ouvidos, alguma música que goste.

Se não for aquela do Milton Nascimento, que seja outra. Algo como:

“I get by with a little help from my friends
I’m gonna try with a little help from my friends...”