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quinta-feira, 17 de março de 2011

Muito Além de Piracicaba



Um sábio filósofo disse certa vez: “tios te preparam para a vida”.

E disso nosso jovem Luiz Augusto sabia, e muito bem. Afinal, sua criação foi marcada pela traquina presença de tio Valdir, um exímio pentelho que a feliz condição de irmão da mãe permitia.

Valdir era um tiozão clássico.

Mal Luiz mal completou 7 anos e já tinha dedos indicadores molhados de saliva cutucando seus ouvidos, passando pela adolescência com esmagadas no aperto de mão. Os anos seguintes colocaram a criatividade de Valdir à prova. E ele não decepcionou em nenhuma oportunidade. Aos 17 anos, as brincadeiras culminaram em encabulantes demonstrações de orgulho.

“Mostra o pintão pro tio, mostra!”. Bradava um avermelhado tio Valdir, no almoço que a família conheceu sua primeira namoradinha.

Mas nem o mais sábio dos filósofos preparara Luiz Augusto para aquele momento. Lá estava nosso herói, na mesa do almoço de sua primeira viagem com a família da namorada. Por ironia do destino, no interior paulista, na belíssima cidade de Piracicaba.

Mas dessa vez, o jogo tinha virado. A vergonha de recém chegado tinha se dissipado. Luiz Augusto sentia-se confiante. Afinal, havia transposto com ginga e talento a temida barreira da receptividade do sogro.

Logo antes de tomarem seus lugares na singela mesa de 18 lugares, Letícia o avisou de um fato com os olhos arregalados de receio. O alerta era para um certo tio, tido como “brincalhão e muito sem noção”. Mas Luiz deu ombros. E respondeu com um meio sorriso, entre ousado e confiante:

- Fui treinado pelos melhores, meu bem.

Disse isso e justamente ele, a lenda, puxou uma cadeira e sentou ao seu lado, cumprimentando-o com um sorriso de lábios colados. Letícia estremeceu. Luiz Augusto manteve a compostura. Mas não sem deixar de engolir sua saliva, em seco.

A mesa servia um verdadeiro banquete. Leitão à pururuca, purê de polenta e para completar, uma vaporosa travessa de rabada. Os diálogos corriam bem, pontuados por trivialidades. Até que ele, o legendário tio Gera, soltou sua primeira pergunta revezando o olhar entre Letícia e o marinheiro na primeira viagem com sua família.

- Lelê minha querida… Você está diferente. O que você fez?

Letícia olhou para seu prato e respirou fundo. Conhecia o seu tio. Era uma escada para sua piada, sabia que era. Tentou desconversar. Os primos se cutucaram com as costas nas mãos, nem se esforçando para esconder a animação.

A sobremesa tinha chegado mais cedo.

Letícia respondeu:

- Ah tio… Nada não. Estou a mesma, ué. – E deu um sorriso amarelo como a polenta no seu prato.

Sônia, esposa do conhecido tio Gera, enviava bolas de fogos por olhares de repreensão. Sinais claros de “Geraldo, para de graça JÁ!”. Mas se ela bem conhecia seu homem, sabia que nem atravessando um garfo por sua mão ele perderia a piada.

- Não… Não sei. – Gera semi cerrou os olhos, pensativo - Você tá mais… Mais mulher. Está muito bonita!

E com esse “bonita”, Luiz recebeu uma olhada de canto do olho que gelou seus ossos. Estava chegando sua vez de ser jogado ao fogo da vergonha. Tinha certeza disso. O rapaz respirou fundo, fechou os olhos e lembrou dos ensinamentos do mestre Valdir.

A família já começava a suspeitar até onde tio Gera queria chegar. O silêncio na mesa era total, só cortado pela tensa apreensão pelo seu desfecho. Até que Letícia, num gesto ousado, tentou pegar no pulo o famoso Geraldo Albuquerque. E disse firme:

- É que eu coloquei silicone nos peitos, tio. É por isso.

Nem ele esperava por isso. Nunca na história de um almoço da família tantos olhares foram trocados simultaneamente. E Sônia, em uma tentativa desesperada, tentou mudar de assunto:

- Gente, alguém acaba com esse purê vai.

A frase ficou jogada no vazio. Podia ser um purê feito a quatro mãos por Jamie Oliver e Claude Trogois, a resposta do tio Gera era muito mais esperada. E para a surpresa de todos, não respondeu para Letícia.

Sem uma gota de constrangimento ou sinal de surpresa pelo desafio repentino, Gera direcionou o olhar para seu irmão.

- Beto, me diga uma coisa. Quanto que custa uma cirurgia dessas?

- Ah Geraldo, já chega. Brincadeira tem limite!

Sônia perdeu a paciência com seu marido. Estava envergonhando a menina, ainda mais na frente da visita. Que grosseria! Raivosa, só a distância a impedia de usar seu garfo para outro propósito.

Malandro, Geraldo fingiu indignação.

- Mas não é brincadeira, Soninha. Só queria saber, ué! Coisa mais normal do mundo. Qual o problema? – Virou para seu irmão, e reforçou. – Sai por quanto hein Betão, uns 3 mil?

Encabulado, o sogro de Luiz Augusto respondeu com disfarçada naturalidade.

- Ah… Custou 4 mil, por aí.

Tio Gera encenou um espanto maior do que realmente sentiu. Estava chegando ao clímax do seu ato.

- Caramba! Quatro mil reais?

Olhou em volta, fisgando de vez os olhares de todos os convivas e sustentando o olhar em Luiz Augusto por pouco mais de longos 3 segundos.

E com tapões repetidos nas costas do rapaz, arrematou:

- Quatro mil reais… 4 mil reais pro meninão aqui brincar!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

XV de Piracicaba
















Que o Brasil é o país do futebol todo mundo sabe.

Este belo esporte bretão se adaptou ao Brasil como um gringo em uma praia de areia branca a bebericar caipirinhas. São 800 clubes profissionais, 13 mil times amadores e uma rápida pesquisa no Wikipedia que só confirma uma paixão nacional que dispensa maiores comprovações.

Na vida social de um brasileiro, o futebol é a luz no fim do túnel da falta de assunto. Ele transita livre por todas as classes sociais, une opiniões e promove debates. Melhor que qualquer variação brusca de temperatura ou chuva inesperada para cortar o silêncio de um elevador subindo andares.

Futebol é chute de voleio que bate na trave e entra, é defesa de mão trocada aos 45 do segundo tempo, é o sorriso irônico ao colega de trabalho depois da rodada do final de semana.

Futebol é tudo isso. E muito mais. Mas não para Luiz Augusto. O rapaz nasceu com uma sina, um mal que não conseguia tirar, por mais que tentasse. Luiz era réu confesso de um pecado mortal que o acampanhou das aulas de Educação Física aos olhares perplexos em mesas de bares.

Para ele – pasmem - futebol era um esporte como outro qualquer.

Não que desprezasse por completo. Era como uva passa em uma torta de maçã: não fazia falta muito menos marcava presença.

Nessa última Copa do Mundo torceu com tamanha fé e afinco para a Seleção que quase convenceu. Xingava a televisão, bradava comentários como “Zagallo, coloca o Romário!”. Chegou a ficar verdadeiramente triste com a eliminação da Seleção. Mas entre nós: muito mais por que ia deixar de sair mais cedo do trabalho para churrasquear com os amigos.

A vida corria bem para nosso anti-heroí, que em anos de prática havia se tornado mestre em comentários genéricos sobre o tema e imperceptíveis mudanças de assunto na mesa do bar. Tudo ia tranquilo, até que um namoro entrou pela sua vida. E para sua sorte, Letícia também não era apegada as maravilhas das quatro linhas em um tapete gramado.

Tudo certo. Até que em seis meses , este dia chegou.

Sentado na comprida mesa de almoço de domingo, o recém-apresentado Luiz Augusto engolia entre garfadas sua timidez e receio pelo fatídico assunto. O almoço corria bem, com Luiz seguindo a voz materna que ecoava ordens de elogiar, agradecer e repetir o prato. Mas etiqueta nenhuma o salvaria do limbo:

- Então Luiz... Que time você torce?

A perguntou veio acompanhada dos olhares inquisidores de primos, irmãos e o grão-mestre daquele conclave: o sogro. Um homem de seus 50 e poucos anos, de vistoso bigode, careca e barriga acentuadas, com uma voz firme de quem não gosta de ser contrariado. A expressão de Letícia denunciava um misto de pena e presságio de vergonha alheia, enquanto revezava o olhar entre o pai e o namorado como quem acompanha uma acirrada partida de tênis.

Durante meses Luiz Augusto disfarçou o suor frio que corria sua espinha com as histórias do fanatismo de seu sogro pelo Sport Club Corinthians. Mas para isso, o jovem havia preparado uma carta na manga. E respondeu com a firmeza de quem em seguida beija o escudo do time.

- Sou XV de Piracicaba, desde criancinha.

Os Albuquerques se entrelhoaram, entre curiosos, surpresos e sadicamente um pouco decepcionados por ele não ser torcedor de nenhum dos times rivais. O grão-mestre externou a curiosidade da família:

- Mas... E aqui em São Paulo, qual você torce?

- XV de Piracicava também. Sou quinze onde for. – Um ator da Malhação seria mais convincente que ele nessa resposta. Mas passou. O plano estava dando certo.

O sogro soltou os talheres no prato. Luiz Augusto não sabia o que veria em seguida. O “tio” olhou sério para o canditado a genro, pensativo.

E abrindo um lento sorriso, começou a cantar com o mais legítimo dos sotaques caipiras:

- Cáxara di fórfi, carcanha de grilo. Suvaco de cobra, asa de barata! Garrafão de pinga, nhéque de portêra. Jaquetá de côro, já que tá que fique! 3 veiz 5 é...

Por um milagre da perspicácia, Luiz Augusto completou:

- Quinze!

O sogrão soltou uma risada alta.

- Esse hino é demais! Quem diria, um torcedor do XV. Sabe que admiro quem fica com o seu time, seja o tamanho ou aonde estiver. Não sei se a Letícia já te contou, mas eu já vi muito jogo do XV de Piracicaba. Meu querido vôzinho, que Deus o tenha, tinha um sítio por lá e era torcedor símbolo do Quinzão. Pediu para ser sepultado de uniforme e tudo.

Fez uma breve pausa, em silêncio respeitoso, e continou, todo animado:

- Vamo lá, essa você sabe Luizão. Com sua idade, você teve a sorte de ver o timaço de 95.

Com o pouco de coragem que lhe sobrava, Luiz foi all in na ousadia futebolística:

- Ô se lembro, tio. Time assim não se faz mais não. Uma seleção!

O sogro olhou para Luiz Augusto, cerrando os olhos. A fatia do abacaxi tremia no garfo do rapaz. Parecia que suspeitava de algo. Ou queria lembrar alguma coisa. Prosseguiu:

- Era Zé Wilson no gol, Jair, Tonhão, Ari e Danilinho fechando a lateral esquerda. O meio era só craque: Afonso, Curupira - volante dos bons - Chico Bahiano e Gera, o rei das faltas. Na frente tinha o matador do João Ramiro, junto do... Do...

Fez um sinal de fast foward com as mãos, pedindo para que Luiz completasse. O esforço do sogro para lembrar era tamanho que parecia que estava prestes a espirrar.

Luiz Augusto estava desesperado. Olhou para os lados, como que a procura de um milagre, de uma enciclopédia do futebol aberta na página certa. Só encontrou olhares desconfiados dos “primos”, de complacência da namorada e de impaciência da empregada, que esperava eles encerrarem o papo furado para perguntar quem queria mais café.

Em uma tentativa desesperada, buscou o recurso que sempre usou: mudar de assunto. E num impulso, a resposta saiu como uma súplica, quase como a confissão de que na verdade ele não sabia nada de futebol.

- O cafezinho!

Silêncio na mesa. Testas franzidas. Risadas seguradas, imitando um relinchar abafado de um cavalo. A resposta cortou imediatamente o “espirro”, fazendo que o sogro levantasse lentamente com o dedo em riste, apontando para o apavorado rapaz.

- Esse mesmo! - Disse isso estendendo o "e", como um cientista que grita "eureka" . - Craque. Que neguinho mais bom de bola, dava gosto de ver né não?

O almoço encerrou, com Luiz aprovado com um tapinha nas costas e um convite para ver um jogo do Timão, na feliz condição que ele não fizesse nenhum comentário contra o alvi-negro paulista.

Satisfeito, naquele dia Luiz Augusto voltou para casa cantarolando. A música? “Asa de barrata, carcanhá de grilou. Treis veiz cinco é quinze. Xis Vê, Xis Vê!”