quarta-feira, 29 de abril de 2015

Polpa Tempo

Nem tudo é gianduia e caffè na aprazível Turim.
Semana passada tive o prazer de conhecer outra atração da Itália. Menos famosa que sua gastronomia, mas cujo exagero é igualmente indigesto. Mentira, nunca passei mal por me entupir de comida italiana. No máximo dormi mais horas pela tarde do domingo.
Já conhecia boatos sobre a burocracia italiana, mas vivenciá-la foi outro papo. Você imagina que o molho de tomate por aqui vai ser uma delícia. Mas espera até a primeira garfada. Incrível.
O princípio de tudo parecia simples. Uma bicicleta que enviei de Sydney para cá precisava de um código para ser liberada na alfândega italiana.
O lugar para conseguir esse código? Um escritório a uma hora de Turim, de ônibus. Ainda imerso na minha ausência de sabedoria e inocência, achei que era só o necessário. Pois bem. Lá fui informado que o código só seria dado mediante um endereço registrado na Itália.
Trampo número 1: ter o endereço. Check.
Trampo número 2: tê-lo registrado. Chit.
E lá fui eu registrar o endereço.
Em uma mesma manhã, passei por dois tipos de cartório, com uma visita ao banco no caminho, para pagar uma taxa. Com o detalhe de que o recibo deveria ser apresentado ainda no primeiro cartório. Taxas. Como poderia me esquecer do queijo ralado de todo pratão de burocracia?
Tal epopeia provavelmente levaria um dia inteiro, se não fosse pela ajuda de Mario, meu primo italiano surrealmente gente boa. Quando liguei para perguntar sobre os trâmites locais, ele se voluntariou a me ajudar. Tenho dúvidas se Madre Teresa faria algo parecido.
Ele foi até o cartório e de lá partiu comigo passo a passo, como um sábio guia pela Cordilheira dos Papeládias.
Ao chegar no último guichê, do último cartório, a surpresa. O que eu precisava fazer lá, só com data marcada. A próxima em 15 dias. Até o paciente e solícito Mario ficou puto. Nosso calvário extrapolava os padrões italianos.
E hoje como está a situação? Infelizmente, só posso dizer que ainda estou pedalando.

*Atualização: ao fechar dessa edição, a bicicleta finalmente foi entregue. =D

Caffè, dolce e um tiquinho assim de carimbó

A cidade amanhece. Faz frio. Encostando o cotovelo no balcão, ele pede um pingado chamando o atendente por algum apelido. Instantes depois, o café aveludado vem devidamente servido num copo americano. O homem agradece e com migalhas de pão na chapa grudados no bigode, segue seu rumo para conquistar outro pão.
Sempre achei incrível o papel protagonista do cafezinho no dia-a-dia do brasileiro. Ele é o convite para entrar em casa, para sintonizar na Rádio Peão do trabalho. Ele está cravado no Aurélio, na definição da primeira refeição do dia. Quer algo mais?
“Cafezinho”, aliás, é o terceiro colocado entre “palavras brasileiras” que te falam com um sorriso quando você conta que é do Brasil. Só perde para “Neymar” e a celebridade “Saudade”. (Sim, também torço para o dia que “Mussum” entre para o Top 3).
Turim amanhece do mesmo jeito. Cotovelos se apoiam nos balcões todas as manhãs em pequenos e simpáticos Cafés por toda cidade. E a 1 Euro cada, você curte um espresso curto e cheio de sabor. Cappuccinos, macchiatos e outras parentes também rodam o salão. Mas o espresso ainda é o rei.
E o pão na chapa? Aquele coringa do lanche matinal? Que vai bem com polenguinho, requeijão ou até sem nada – o que pessoalmente acho esquisito, mas até aí tem gente que prefere por Toddy no leite ou ovo frito com a gema dura.
Se existe o ditado “Minas não tem mar, mas tem bar”, diria (sem a rima) que Turim não tem pão na chapa, mas tem uns baita doces.
Há muito tempo, importar cacau ou a pasta base para chocolate estava muito caro. Para “fazer render” (quem nunca?), adicionaram avelã, muito comum na região, à mistura. Nascia o gianduia. Sabe o Nutella? Então, esse é o seu pai.
Pois bem. Nos mesmos cafés pelas esquinas, lá está ele. Em massas folhadas, em pãezinhos, barrinhas, sorvetes e afins. Por enquanto, o Bebeto e Romário do meu café em Turim é um folhado de gianduia e um café. O preço pela dupla? A bagatela de 3 Euros, no máximo.
Os cafés de Turim são incríveis e valem cada visita. Todo lugar em que uma cidade começa o dia é sempre uma janela escancarada para conhecer um pouco mais o que é ser de lá.
É só sentir o cheirinho do café e abrir a porta.


Texto originalmente publicado no: http://mundoplot.com.br/category/colunas/ciao/

Allora...

(Ou: as primeiras impressões de uma cidade encantadora)
De mãos dadas no alto de um prédio, ele arremata: “You met me in a very strange time in my life”.
Prédios em frente começam a implodir e desabar, um a um. Entra a música. Os créditos. Fim.
Agora você deve estar se perguntando – e eu também – o que cazzo a última cena de “Clube da Luta” tem a ver com uma coluna de viagem sobre Turim? Humildemente, explico.
Passeando em Turim | Foto: Fábio Lattes

Você, caro leitor, está me conhecendo em uma época atípica na minha vida. Longe de casa há um tempo, há uma semana fui do esmero e a juventude de Sydney para o charme vintage de uma cidade que já viu muito nessa vida. Do sol mais forte e do céu mais azul que já vi na vida para um frio úmido e um céu que mais parece um constante filtro de Instagram, desses que usam para deixar selfies mais chiques.
Agora adicione a esse curioso contraste um pouco das minhas próprias expectativas. Minha ansiedade quanto ao futuro aqui, minha vontade de conhecer cada canto, aproveitar cada segundo. Pimba! A frase já faz um pouco mais de sentido.
Por isso, peço um pouco de paciência. Ainda não tenho a dica daquele lugar escondido com o melhor Cacio e Pepe (uma massa deliciosa com queijo pecorino e pimenta do reino). Opa. Já temos uma dica. Aliás, uma boa é o Na Garagem, em Pinheiros. Baita hambúrguer. Simples, tenro, preço justíssimo. Ô saudade.
Talvez essa seja a graça. Vou poder dividir com vocês cada descoberta, uma a uma.
Mas não pense que vou te deixar sair daqui de olhos abanando. Algumas coisas já me chamaram a atenção. Vamos a elas.
Comer é barato. Demais. Cinco euros uma massa. 3,50 um sanduba de presunto cru e gorgonzola. Com mais cinco, você emenda o “secondo piatto” e já começa a falar um pouco mais como os Berdinazzi em “O Rei do Gado”.
A fórmula europeia de encantamento arquitetônico se repete. Labirinto de ruas estreitas de prédios antigos que de repente se abrem em um oásis de paralelepípedo. As Piazzas. Logo de cara me deparei com uma enfeitada por um pequeno castelo, feito de tijolos marrons escuros iluminados para ajudar a cair o queixo pelo menos um pouquinho. Outra, com uma enorme estátua equestre. Outra, uma enorme fonte.
E andando por elas, eu. Com a cabeça como um giroscópio, tentando capturar cada detalhe, absorver cada impressão.
Pensando bem, vale um ajuste:

“You met me in an amazing time in my life.”


Texto originalmente postado no: http://mundoplot.com.br/category/colunas/ciao/


Ciao!

Nunca esqueci o dia que percebi que o nosso “tchau” era nada mais que um “ciao” abrasileirado. E pior: era uma versão reduzida do original. Que só significava “até logo”, “adeus”, “até mais”. Justo nós, brasileiros, que abrasileiramos um cozido francês e criamos a feijoada? Justo nós, que abrasileiramos um esporte inglês e criamos a bicicleta, a pedalada, a comemoração de gol tirando uma máscaras e adornos de dentro do shorts?
Mas tudo bem. Apesar de ter ficado só com a parte do “até logo”, temos a a nossa querida “saudade” para compensar toda despedida que um “tchau” implica.
“Olá” e “Tchau”, em uma única palavra. Ciao. Essa palavra nunca me fez tanto sentido. Há 6 meses eu e minha namorada (agora noiva!) embarcamos para a Austrália. Meu plano? Viver uma experiência profissional e pessoal, viajando pelo país e pela Ásia. Um ano, talvez dois. O suficiente para voltar com a bagagem cheia de tudo que não vai em uma mala e não é taxável pela Receita. Era o primeiro Ciao, me ajudando a se apresentar a essa nova aventura.
Seis meses depois, o segundo ciao. Aquele, do “até logo”.
ciao
A experiência profissional que tanto procurei por aqui, entre turnos como barman e garçom, inesperadamente veio de outro país – a Itália. Justamente a inventora e proprietária do duplo “oi” e “fui!”.
E é sobre lá que vou ter o prazer de escrever por aqui. Com o mesmo plano. Com o mesmo peito aberto para se arriscar e viver uma incrível experiência de vida. E no futuro, dizer outro Ciao contente e agradecido. E pronto para o próximo.
Até!


Texto originalmente postado no: http://mundoplot.com.br/category/colunas/ciao/

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Rei Midster


Conta a Mitologia e confirma o Wikipédia que certa vez Baco, o deus do vinho, deu por falta do seu pai, Sileno. O bebum vovô havia se perdido no caminho de volta para casa e fora encontrado por camponeses, que levaram o velho ao seu rei, Midas.

O rei o reconheceu e recebeu Sileno com hospitalidade, canja e café preto. Dias depois, devolveu-o para Baco. Extremamente grato, o deus do vinho ofereceu para Midas a recompensa que ele desejasse.

Decidido, Midas pediu que tudo que ele apontasse se tornasse imediatamente hipster.

O Rei Midas seguiu de volta para seu castelo, ansioso para testar seu poder. A expressão de espanto nos seus olhos revelaram pouco de sua euforia ao tocar no cavalo que montava: o animal havia ganhado uma barba cheia e um óculos de aros de tartaruga.

Inflado de alegria, esporou o lombo de seu puro-sangue e partiu a galope para seu castelo. Ao ordenar que os guardas abrissem o portão, uma grata surpresa se revelou. O castelo havia se tornado o Copan.

Midas queria comemorar e contar para todo o Reino o seu maravilhoso dom. Empolgado para organizar um baile de gala, se apressou a apontar para um criado de confiança. Para seu espanto, ele havia se tornado o DJ Tutu Moraes.

Em um dado momento da festa, reuniu seus súditos e mandou buscar um globo terrestre. Debaixo de olhos atentos, primeiro apontou para Austin, Texas. Em seguida, seu dedo mágico indicou lindas praias: Alter do Chão, Ilha do Marajó, Caraíva e São Miguel dos Milagres.

Motivos para celebrar não faltavam. Por isso, ordenou que um grande banquete fosse servido. Food trucks de toda região e de culinárias exóticas foram convocados.

Mas no momento de levar o garfo a boca, o horror: o rei foi tomado por uma compulsão incontrolável. A cada novo prato apresentado, a reação era a mesma. Postava prato por prato no Instagram, sem dar sequer uma única garfada.

Desesperado pela inanição eminente, sua querida filha correu para acudi-lo. Consternado, o rei Midas a viu ganhar um coque e vestir uma camiseta lavada de uma banda obscura da Islândia.

Ergueu as mãos em preces e ligou para Baco, implorando que ele lhe tirasse o poder. Divindade misericordiosa, o deus do vinho consentiu, mas teria que ser mais tarde. Ele estava na feirinha da Benedito comprando discos.




segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Entrevista de Emprego


Após a tensa sabatina com o CCO, o CFO e todo o board de conselheiros, o executivo Otávio chegou ao momento de sua entrevista final com o sisudo presidente da multinacional.

- O headhunter que te indicou frisou um ponto alto do seu curriculum. Há quanto tempo você exerceu essa função?

- Há 25 anos, senhor.

- Em qual área?

- Organização de fila de pula-pula e pintura de rosto.

- Certo. O que você pintava?

- Dependia do pedido. Normalmente borboletas para as meninas, tigre para os meninos. Mas teve um dia que um garoto pediu um dragão, de asas abertas, imponente.

- E como você enfrentou esse desafio?

- Confiante. Vinha me preparando há tempos para aquele momento. 

- Você se considera competente para lidar com pressão?

- Sim, sem dúvida.

O CEO olhou fixo para Otávio. Sem desprender os olhos do entrevistado, tirou o Rolex dourado de seu pulso e alisou seu braço, franzindo um semblante pensativo. Em seguida, abriu lentamente sua gaveta e tirou o fantoche de um macaquinho. 

Subitamente, o pequeno primata de pano ganhou vida. 

E com um gesto rápido, Dênis o Macaco Bom de Bola, assinou sua contratação.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

O Atendente


Em um Starbucks do Jardim Paulista, um atendente de poucos sorrisos anota pedidos.

- Me vê um capuccino grande, por favor.

- Certo. Nome?

O atendente sonda o freguês de cima a baixo com olhos impacientes.

- Carlos.

- Ok. Se quiser ficar ao lado, ele fica pronto em um instante.
Passam alguns minutos até Carlos receber seu copo e caminhar para a mesa com o corpo inclinado por segurar o jornal com o sovaco esquerdo.

Toma um gole do seu aguado café de charmoso nome italiano e abre satisfeito o seu Estadão. Para seu espanto, não foi a manchete sobre a mais recente maracutaia que o surpreendeu. Lá estava ele. Escrito de caneta preta e letra de fôrma, bem centrado no copo de isopor descartável: “Peitinho”.

Com uma expressão incrédula, Carlos caminha lentamente ao balcão, com uma pergunta franzida no rosto.

- Licença. Esse copo era o meu?

- Você pediu um cappuccino médio?

- Pedi.

- Então é seu.

- E o que isso significa?

Mostra o copo. O que o atendente não esconde o sorriso maldoso.

- Você está me chamando de peitinho? É isso?

Os demais clientes desconectam da Matrix de seus smartphones e tablets, esticando suas orelhas e olhares para acompanhar a história que contarão com onomatopéias para toda sua timeline.

- Desculpe se eu preferi ir com algo mais informal. Um apelido carinhoso, ué.

- Carinhoso??

Antes que completasse o titulo de sua indignação, o atendente já o interrompe.

- Olha amigo, não fui eu que te dei esse apelido. Foi o colégio inteiro, imagino.
A platéia já nem disfarça a curiosidade. Todos os olhos do lugar acompanham o desfecho da história.

- Ei!!

Um cliente se levanta e avança a passos rápidos para o balcão. Segura o copo com a ponta dos dedos, como um ator que mostra o rótulo do refrigerante antes de dar um gole.

Lá estava. “Boca de caçapa”, escrito com letra de fôrma.

Já não tinha o que disfarçar. O café era um silêncio completo. Uma torcida apreensiva e ao mesmo tempo maldosa, ávida por um belo barraco.

- O que está acontecendo? Algum problema?

O gerente interrompe antes do pior acontecer.

- Esse desgraçado escreveu no meu copo, me ofendendo.

- Kléber. Vá para dentro, por favor.

Sem dizer uma palavra, Kléber empurra a porta vai-vem logo atrás e some da vista dos clientes ofendidos.

- Senhores, me desculpem. Ele...

- Você tem que mandar esse desgraçado embora.

- E por justa causa! Eu lá tenho boca-de-caçapa?

Carlos envia um olhar de compaixão ao seu aliado. Mas não evita de reparar que ele realmente tinha uma boca enorme.

O gerente olha fundo para Carlos e faz sua promessa.
 
- E eu vou demitir. Dou minha palavra. Isso é inadmissível! Onde já se viu? Ofender assim um cliente? É a última vez que ele faz isso. Peço mil desculpas, senhor Peitinho. 
 
 

domingo, 17 de novembro de 2013

Anestesia



Toda pessoa hospitalizada inevitavelmente vai acordar da sua anestesia com o barulho da máquina que monitora os batimentos cardíacos. Abrir os olhos devagar, sendo despertando para o mundo por um apito constante, seco e robotizado.

Pelo menos no cinema é assim.

E foi exatamente assim que Carlos acordou.

Na pelada de terça, Carlos havia fraturado feio o seu braço. Uma placa de titânio e mais 8 pinos de guarnição tiveram quer ser colocados, em uma cirurgia de uma hora. Obviamente, para tal trabalho de marcenaria óssea foi preciso que ele fosse devidamente sedado.

Com o clarão da luz branca e incômoda do seu leito, Carlos lentamente abre os olhos.

Demorou alguns segundos rodando os olhos pelo quarto pela lembrar o que aconteceu. Futebol. Escanteio. Pulo. Queda. Fratura. E uma máscara segurada na sua boca, acompanhada de um doce pedido sugerindo que ele respirasse fundo aquele gás que lhe lembrava lança-perfume.

As silhuetas borradas na sua frente ganharam contornos mais bem definidos.

- Eu não estou acreditando. Você acordou. Você finalmente acordou!

Um homem na faixa dos 60 anos abre um sorriso contente. Seus olhos quase transbordam lágrimas de alegria.

Carlos nunca viu ele na vida. O homem, por outro lado, parece conhecê-lo há muito tempo. E com um sorriso, pergunta:

-  Como você está se sentindo, Tutinho?

Faltam palavras para Carlos. Ninguém no mundo, além de sua esposa há 20 anos, conhece ou usa esse apelido. O qual tem regras claras de ser empregado somente em situações que os dois estão sozinhos.

- Quem é você?

- Sou eu, Tutinho.

- Que palhaçada é essa? Sônia! Sônia!

- Não precisa chamar por ela. Eu estou aqui, Tutinho.

- Para de me chamar de Tutinho, seu filho da puta. Só a Sônia me chama de Tutinho. E se você não sair daqui agora e acabar com essa palhaçada eu vou quebrar a sua cara. Sônia!!

- Janeiro de 1996. Fomos para Natal. Alugamos um buggy. Você dispensou o motorista e disse que sabia dar muito mais emoção que o bugueiro. Você quase capotou em uma duna e por pouco não voltamos mais cedo para casa.

Palavras que expressariam espanto transformam-se em olhos arregalados no seu rosto.

- A noite você insistiu em comer uma dúzia de ostras, só por que era muito barato. Passou super mal e eu te levei, pálido, para tomar soro.

O homem espera Carlos absorver tanta informação.

- Está vendo? Sou eu, Carlos.

Com um cafuné na sua cabeça, o homem suspira:

- Eu tenho tanto para te contar...

Carlos não consegue esboçar reação. O homem continua.

- A cirurgia no seu braço teve uma série complicações. E tiveram que induzir você a um coma.

O homem respira fundo, dando uma involuntária pausa dramática ao que ia dizer.

- E se passaram 15 anos desde então.

- Eu estava há 15 anos em coma??

O desconhecido afirma com pesar. Carlos começa a tatear seu rosto. E para seu horror, ele está coberto por uma barba espessa. O homem tira um espelho de maquiagem do bolso da frente da camisa. Entrega virando seu rosto para o outro lado.

Carlos está com uma barba branca. Os cabelos, antes grisalhos, foram praticamente tomados por fios prateados pela velhice.

- Isso não é possível. É um sonho. Só pode ser um sonho.

- Não Carlos, não é.

Com um estalo, Carlos lembra de outra dúvida que ele queria tirar.

- Então quem é você?

- Eu não sei por onde começar. No fundo, sabia que esse dia ia chegar...

- Me fala, cacete! Quem é você?

- Eu sofri muito esse tempo todo. Não conseguia seguir minha vida. Não conseguia virar a página, por que de fato não era uma viúva. Vivia com uma tristeza no peito, um vazio. E só revi a felicidade quando encontrei o Sandro.

- Sandro? Quem é Sandro?

- Sou eu.

A máquina apita freneticamente.

- Isso mesmo, Tutinho. Eu era a Sônia, a sua Sônia. A sua esposa. E eu mudei de sexo.

Carlos tenta balbuciar algumas palavras. Inflada de ar e coragem, Sandro continua:

- Tomei hormônios. Usei barba, bigode. Menos cavanhaque que ficou pouco másculo. Eu finalmente vivi, sabe? Fui para a balada. Para o boteco jogar sinuca. Fui até para o Carnaval de Salvador, com o Betão e o Vagner, seus amigos divorciados. Eventualmente encontrei uma mulher boa, sosseguei. A vida seguiu.

- Isso não pode estar acontecendo comigo. É pegadinha.

- Não meu bem, não é... Mas por favor, me entenda. Os médicos disseram que você era um casa perdido! Eu não tive opção senão buscar ser feliz.

O recém acordado afunda os rostos nas mãos, em um esforço para que quando esses cortinas abrissem tudo voltaria ao normal.

- Mas eu estou aqui agora, do seu lado. Além de sua mulher, sempre fui sua amiga. E agora sou seu amigo. Seu brother.

Sandro sorri ternamente para Carlos.

- Encare isso como um recomeço! Você acordou. Você tem uma vida para aproveitar agora.

Carlos respira fundo por 40 minutos, com Sandro esperando pacientemente ao seu lado. E consegue, em um milagre da sensatez, por as coisas em perspectiva. Realmente, ele poderia agradecer por estar vivendo. Afinal, o que mais poderia piorar? Ele realmente tinha usado toda sua cota de azar da vida. Agora era recomeçar. Isso mesmo: recomeçar.

- E o Carlinhos, cadê o Carlinhos?

Sandro sorri mais uma vez.

Um rapaz vestido em um terno alinhado e com sutis riscas de giz entra no quarto. Estava esperando a sua deixa para abrir a porta.

Pela primeira vez desde que acordou, Carlos sorri.

- Carlinhos! Como você cresceu, menino. Está um homem! E que elegância, parece o Ronnie Von. Me conta, o que você faz da vida?

- Eu vendo Monavie, pai.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Arquivo


Washington DC. 20 de janeiro de 2009. No gabinete presidencial da Casa Branca, um ansioso recém-empossado mandatário da nação batuca na sua mesa de carvalho escurecido. Está ansioso. Pela primeira vez como presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama tem uma reunião marcada com o Secretário de Defesa.
Hora de conhecer os fatos obscuros que somente o presidente do país mais poderoso do mundo pode saber. O que raios tem naquela Área 51? Quem de fato matou Kennedy? O que realmente ocorreu na Crise dos Mísseis? O que aconteceu com o Ronaldinho na final de 98?
A porta se abre. O Secretário entra com passos firmes, carregando uma maleta rígida e de couro preto.
- Bom dia, senhor presidente.
O Secretário está impassível.
- Bom, vamos começar.
Apóia sua maleta no colo. Com um estalo, abre simultaneamente os fechos em cantos opostos. Tira de dentro um envelope pardo, fechado por um barbante enrolado. Não há sequer o carimbo vermelho de “Classified”. O arquivo não passa de um simples – e incendiário - envelope marrom claro.
Deita o envelope na envernizada madeira da mesa, levantando os olhos com uma pergunta implícita: “Tem certeza?”.
Barack Obama responde com a cabeça em um lento sinal positivo.
Cuidadosamente, o Secretário desenrola o fio preto que separa o Presidente dos fatos bombásticos que ele terá que levar para o túmulo.
Com os dedos em pinça, Barack Obama esgueira sua mão dentro do envelope. O conteúdo impressiona: é uma única folha de papel.
O presidente corre os olhos lentamente pelo revelador pedaço de sulfite.
Termina com um suspiro e uma expressão incrédula.
- É isso?
- Sim.
- “Torta de frango da Isa – Passo a Passo.”
- Isso mesmo, senhor.
- O que porra eu devo fazer com isso?
- Você já experimentou a torta de frango da Isa?
- Não.
- Então. Quando experimentar vai entender.
- É sério isso?
- Sim, muito sério.
- Já comi muitas tortas na vida. Adoro tortas. Você fez sua pegadinha, beleza. Mas agora é sério. Pare agora com essa palhaçada.
- Não é palhaçada, senhor.
A mesa sente o estrondo do soco de Obama contra sua superfície.
- Cadê os dossiês sobre ETs? Cadê o discurso pronto no caso de um apocalipse espacial? Cadê o míssil secreto que explode asteróides?
- Isso tudo você acha na Internet. A torta da Isa, não. Não existe nada como a torta da Isa.
O Secretário pausa para engolir sua saliva. E continua:
- Sério, ninguém faz igual no mundo. Você nunca na sua vida vai comer algo como essa torta, por mais que você procure. A massa é molhadinha. O recheio é temperado na medida. É uma explosão de sabor na sua boca.
Obama passa a palma das mãos no rosto, visivelmente irritado.
- Eu cheguei até aqui, fiz campanha, prometi mudança, virei web celebrity... Tudo para saber como fazer a torta de frango de uma brasileira de Barão Geraldo?
Alguém bate a porta. O Secretário autoriza.
- Pode entrar.
Um mordomo empurra um elegante carrinho de comida, com um garfo e um único prato coberto por uma tampa prateada.
- Puta que pariu. Eu pedi comida por acaso?
- Eu que pedi, senhor.
- O que é isso?
- A torta, senhor. A torta.


terça-feira, 24 de setembro de 2013

Cine Sonho


O ano é 2114, D.C.
O mundo continua com os hábitos do século passado. Fotos na academia, auto-retrato com biquinhos e frases sobre o trânsito – mesmo que agora ele irrite pelo ar, em carros elétricos que flutuam sob comandos de voz – continuam a fazer parte de nossa rotina. Talvez agora com smartphones um pouco mais modernos.
A Ciência e a Tecnologia, essa dupla dinâmica do progresso, trouxe avanços consideráveis para a Humanidade. Mas entre suas diversas contribuições, uma invenção conseguiu jogar para escanteio o que parecia impossível. O Cinema, essa arte que tanto entretinha 100 anos atrás, foi posta de lado para algo que até então ficava confinado nas salas de psicólogos ou na cabeça de seus autores: os sonhos.
O processo de telecinagem de sonhos foi uma revolução ao alcance de todos. Um simples aparelho que capturava as ondas eletromagnéticas que o cérebro produzia enquanto a pessoa sonhava. E as transformava em imagens. O sucesso foi estrondoso. Pela primeira vez, o homem podia gravar e assistir seus sonhos, no simples apertar de um botão. Como um serviço de uma TV a cabo.
Os primeiros anos foram um processo de maturidade do serviço. Com a sociedade compreendendo a natureza reveladora de um sonho e a necessidade de torná-lo algo privado e íntimo. Em pouco tempo o ato de assistir seus sonhos entrou na categoria daquilo que é feito em um banheiro. Todo mundo tem uma boa ideia do que se passa lá dentro, mas não é por isso se pergunta o que aconteceu.
Os que decidem revelar seus sonhos normalmente caem no limbo de ignorância coletiva. Simplesmente por que o resultado, via de regra, é um embolado de imagens desconexas e com pouco sentido até para seu autor. Somente alguns poucos nascem com o dom de uma só vez dirigir, editar, produzir e fotografar verdadeiras obras-primas da Oitava Arte: o Cine Sonho.
Laércio Sandoval era um deles. Considerado um dos maiores diretores de sonhos do seu tempo, Laércio colecionava sucessos. Aclamado por público e crítica, era considerado um diretor visceral, com obras que levavam o expectador para lugares inimagináveis. Como a história do menino equilibrado de bruços em 10 andares de pranchas de body-board. Do alto dessa frágil torre de pranchas empilhadas, o garoto tinha que ralar uma bolinha de noz moscada e fazer o tempero aterrisar em um pires lá embaixo. Poesia pura. Um gênio do seu tempo que realizava obras-primas simplesmente apertando REC antes de dormir.
Ainda era 2114 quando inimaginável aconteceu. Na pré-estreia de seu último sonho, exclusiva para críticos e redes de cinema, o projetor sequer iluminou a sala. Constrangido, Laércio cancelou a sessão, culpando um defeito no aparelho. Remarcou a sessão com garantias de um projetor novo e um sonho incrível. Assim que a sala se esvaziou, lhe correu pela coluna um calafrio que ele sempre temeu. Ele simplesmente deu play para sua pequena platéia sem saber o que tinha sonhado. No caso, nada.
Passou o dia se distraindo e propositalmente se cansando. Palestras, sessão de autógrafos, tarde de sexo com uma fã. Tudo para seu corpo ter motivo de sobra para descansar e deixar seu cérebro – ou melhor, seu hipocampo – fazer sua mágica.
Acordou revigorado e ansioso. Foi correndo para a sala e colocou o resultado de sua noite bem dormida para rodar. Nada.
Os dias passaram e Laércio seguiu sua rotina. Sempre com a mesma decepção. Os dias se tornaram meses, as visitas dos executivos se tornaram nulas e a legião de fãs – inclusive aquela da tórrida tarde de prazeroso esforço físico – desapareceram.
Confiante e decidido a se reerguer, Laércio procurou resolver seu bloqueio sonhativo em termos práticos. Precisava abastecer seu cérebro de novas experiências. Novos anseios, pessoas, memórias. Por isso, fez uma pequena mochila e viajou. Durante meses, conheceu lugares incríveis e pessoas igualmente interessantes. Passou perrengues e bons momentos. Levou consigo, é claro, um gravador de sonhos para registrar o que tudo isso produziria enquanto dormia.
E o resultado, novamente, foi longe do esperado. Somente imagens desconexas do que viveu. Frases e imagens soltas no turbilhão de suas memórias.
Determinado a ter um sonho grandioso outra vez, Laércio percebeu que lhe faltava um estímulo incendiário: paixão. Movido por sua ambição, conseguiu se mostrar uma pessoa atraente o suficiente para embarcar em um relacionamento sério. E o melhor: com amor.
Anos depois, terminaram. Curiosamente, a pedido de Laércio. Segundo ele, a tristeza poderia gerar sonhos belíssimos.
Eventualmente seu plano falhou. E ao invés de um lindo sonho, Laércio teve que conviver por um tempo com o pesadelo de seu arrependimento.
Os anos foram seguindo, com Laércio vivendo com empenho alegrias, decepções, paixões, lugares, desejos, momentos, risadas e descobertas. Tudo para conseguir ver de volta às telas do Cine Sonho uma obra de Laércio Sandoval.
Nunca mais viu um sonho seu projetado no escuro do Cinema. Mas sem saber, teve uma vida digna de aplauso.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Manual de Instruções


Uma cegonha desliza pelos céus.

Depois que ela pousa na janela das maternidade e entrega sua encomenda para a mãe, a cegonha conclui a segunda etapa de seu trabalho.

Aproveitando a comoção do momento, ela repassa - discretamente - um papel com claras instruções para o pai.

Transcrevo abaixo o conteúdo desse valioso documento:


“3 Etapas para Acordar um Filho em Idade Escolar

1) Abra a porta bruscamente e diga em um tom firme: ‘Acorda. Escola.’

2) Escancare a janela e deixe o brilho da manhã cegar seu herdeiro como um vampiro exposto a luz do dia.

3) Assovie para o cachorro, preferencialmente um de porte médio para cima,  e o faça entrar esbaforido e carente de atenção. Reforce que nesse momento, ele está autorizado a subir na cama.”


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Término


Foi uma mensagem de texto, como tantas outras que trocaram nesses 2 anos de namoro, que entregou o convite. “Cinema hoje? Tem uma sessão às 20hs. Bjs”. Não precisava dizer mais nada. Breno já sabia o shopping, provavelmente qual era o filme e com toda certeza quem seria seu par.
Se encontraram no lugar habitual, uma herança do tempo que os encontros eram marcados sem a ansiedade que um celular proporciona. Em frente ao McDonald’s, ao lado do carrinho de castanhas caramelizadas que perfumam o ar e custam uma fortuna.
Carlinha já esperava por ele, apoiando o braço direito na alça da bolsa. Ao avistá-la, Breno aperta o passo e abre um sorriso.
- Oi amor... Vamos? Já está em cima da hora e...
- Breno. Senta um pouco.
- Está com fome? Porque se for comer, melhor levar para o cinema.
- A gente pega outra sessão. Queria conversar com você um pouco.
A gravidade da situação ficou clara como neve para Breno.
- O que foi? Aconteceu alguma coisa no seu trabalho?
Carlinha responde com um suspiro penoso.
- Não, não é nada disso.
- Então o que é?
A resposta veio de bate-pronto, como se tivesse previsto a pergunta.
- Acho que a gente devia dar um tempo.
- Um tempo?
- É, um tempo. Eu tenho me sentido confusa, sabe? E preciso de um tempo para ficar sozinha e me encontrar.
Os olhos de Breno involuntariamente se enchem de lágrimas.
- Mas você só pode fazer isso sozinha? Eu posso te ajudar a se encontrar.
- Eu sei que sim, lindo. Mas é algo que preciso mesmo fazer sozinha. O problema não é você, sou eu.
Breno não sabia avaliar se o que doeu mais foi o clichê ou o pé na bunda. Mas Carlinha continuou implacável.
- Eu gosto muito de você. E gostaria muito que continuássemos amigos.
- É mesmo? Amigos? – Breno ganha vida, como se tivessem injetado ânimo nas suas veias.
- Ahnm, sim.
Breno se acalma.
- Puxa, que bom. Também gostaria. De verdade.
- Sério? Que ótimo, Breno. Por um momento achei que você está sendo irônico. Sabia que você ia ser maduro e reagir muito bem.
- Magina! Amigos.
Estendem os braços pela mesa e dão um efusivo aperto de mão. Depois de longos segundos, o silêncio de seus sorrisos só não evolui para um momento de leve constrangimento devido a uma pergunta.
- Qual o nome daquela sua amiga do curso de espanhol, uma morena, baixinha?
- Quem, a Bia?
- Isso! Sempre achei ela uma gatinha.
- Breno, quê isso?
- O quê? Você é minha amiga. Te conheço há anos. Não posso te contar esse tipo de coisa?
- Sim, mas...
- Então, como uma boa amiga, que me conhece bem e tal, podia me apresentar ela.
- Não vou te apresentar a Bianca.
- Por que? Ih... Ficou com ciuminho, é?
Carlinha sabia o que ele queria com tudo isso. Mas naquela sociedade, ela que entrou com o pé e ele com a bunda. Não ia dar esse gostinho.
- Claro que não! Eu que comecei essa amizade, lembra? Sério. A Bia não combina em nada com você.
- Ah, isso deixa que eu descubro.
- E outra. Ia ficar uma situação chata...
- Chata por quê? Na boa, eu sei quebrar o gelo muito bem. Já sei até o barzinho que vou levar. Aliás! Pensando melhor, a gente podia fazer um double date! Lembra do Marquinhos, meu primo? Ele é meio chucrão, mas é muito gente boa. Está na pista, posso falar com ele.
- Para Breno! Para! Que saco. Não vou te apresentar a Bia. E nem ninguém. Entendeu?
- Pô... Por quê?
O cinismo cafajeste de Breno irritava Carlinha profundamente.
- Por que você merece alguém que te valorize, sabe?
- Claro que mereço! Mas é o que dizem: enquanto não acho a certa, posso muito bem me divertir com as “errada”.
Riram. Olhando para baixo com um meio sorriso, Carlinha esperou os risos passarem para assinar sua rendição.
- Mas sabe de uma coisa, Breno? As vezes, a pessoa que você procura está mais perto do que você imagina.
Só subiu os olhos para dizer a última palavra de sua frase de efeito.
E assim, naquela mesa de shopping, começava uma bela amizade colorida.


quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Lei dos Nomes


Setembro de 2043.

Acaba de ser revogada a antiga Lei dos Nomes, devolvendo aos pais a tarefa de escolherem o nome dos seus filhos com responsabilidade e bom senso.

Aprovada há 30 anos, a Lei procurava proteger cidadãos de nomes vexatórios, dando a crianças de até 12 anos o direito de escolherem seus próprios nomes.

O autor do projeto que a revogou, deputado Ben 10 de Oliveira, comemorou o resultado.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Assalto


É uma tarde de fina garoa e sol tímido em uma urbanizada praia do Guarujá. Aquele momento de sossego praiano que tem o gosto amargo de ter comido demais, com a preguiça de quem acabou de acordar meio torto no sofá.
Do mar turvo e espumante, emerge Fúlvio. O mar na altura das canelas dá a impressão que ele arrasta correntes de ferro enquanto caminha. Com a diferença que poucos presos de masmorra teriam o trabalho de descolar a bermuda molhada das coxas ao andar.
Ao chegar na areia dura e escura, pausa para um momento de reflexão. Mas antes de decidir entre um bauru ou misto, um estranho o aborda.
- Ei mano, descola um cigarro.
Fúlvio olha de volta com intensidade, na esperança de que as gotas salgadas que escorrem pelo seu rosto passem a mensagem.
Não passam.
- Cara, na boa, olha pra mim. Acabei de sair do mar.
- Eu vi. Então, dá um cigarro aí.
A insensibilidade com a razão irrita Fúlvio.
- Por que raios eu ia entrar no mar com meus cigarros?
- Você tem cara que faz esse tipo de burrice.
- Ah, falou o gênio que pede cigarro para quem acabou de sair do mar.
Ambos absorvem suas ofensas por alguns segundos.
- Beleza, truta. Então me dá sua grana. Você não é espertão? Certeza que tá com dinheiro pra comprar o cigarrinho pra depois do mergulho.
- Sério. É pegadinha? Cara, eu acabei de sair do mar. A nota estaria molhada, perdida, sei lá.
- Mas você pode ter entrado com moedas. Não é o sabichão? Se preveniu e trouxe moedas. E aí?
Fúlvio olha a sua volta e avalia a chance de alguém gritar o bordão do Sergio Mallandro e acabar com tudo. Silêncio. Lá longe, um vendedor anuncia o seu biju.
- Não. Não trouxe moedas. Não trouxe nada! Você não entende que seria uma idiotice entrar com dinheiro, cigarro ou qualquer coisa que estraga no mar?
- Sim, faz sentido. Mas se você não trouxe nem moedas, cadê seu guarda-sol?
- Olha pra cima, meu querido. Está nublado. Está garoando. Está feio o tempo. Ninguém traz guarda-sol. Ninguém mal vem pra praia.
- Então você veio só de bermuda pra cá, nesse tempo?
- Sim, porra. E de chinelos.
- Ah... Para quê chinelos se o asfalto e a calçada não estão quentes?
Fúlvio se descontrola.
- Por que eu passei na merda do supermercado antes, cacete!
- E para comprar o quê, meu querido?
Pela primeira vez em toda discussão, Fúlvio olha para os pés fincados na areia.
- Bom. Ahnm. É... Cigarros. Cigarros e um isqueiro.
O assaltante abre um sorriso entre sádico e triunfal.
- E nada mais?
Olhando para a vastidão do oceano, Fúlvio confessa com um longo suspiro.
- E um ziplock.