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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mulheres
















Mulheres tem longos e intensos orgasmos, mas – por escolha ou não – podem resultar em nove meses de progressivo aumento da barriga e no desejo de comer a legítima pamonha de Piracicaba às 4 e meia da manhã.


Mulheres variam o humor entre brava “eu capo esse desgraçado” e triste “existem milhares de filhotinhos com frio e sozinhos no mundo” no mesmo dia, por uma semana ou mais. Mulheres crescem peitos, e depois os carregam pela vida afora amarrando-os junto ao corpo com elásticos apertados e incômodos.

Mulheres se apaixonam, têm tesão, desejo, vontade. Mas tem que esperar o convite para a dança, esperar que percebam os sinais que seu corpo entrega como óbvio, um “sim, pode vim, eu não mordo. Eu também quero”. Chegam a deixar de suportar o ardor de uma depilação para não apressar as coisas, como quem deixa a ponta achocolatada do Cornetto pro fim ou segurando-se por mera convenção de um mundo onde homem é “pegador” e mulher é “biscate”.

Transformam a palavra teimosia em plena convicção em seus argumentos, não arredando o pé mesmo quando sabem que estão muito perto de estarem equivocadas. Podem esquecer a chave de casa a cada saída, mas não esquecem o que aconteceu em maio de 2001 para vencer um argumento. Nunca.

Mulheres picham “o amor é importante, porra” sem nunca terem tocados numa lata de spray na vida. Degustam paixões pueris, platônicas, com plena consciência. Pelo cara do sétimo andar, pelo cachinhos que pega a mesma linha de ônibus.

E mais que tudo, acreditam no amor. Na existência da pessoa certa. No homem do seu anúncio de margarina, encantador como quem ela dedicou cartões coloridos com giz de cera no dia dos pais. Acreditam em instantes de taquicardia por estantes da livraria Cultura, na apresentação do amigo da amiga em um aniversário que foi de última hora, sem um lápis no olho ou com a calça de moletom do sábado a tarde.

- E ai, faltou alguma coisa?
- Ah um pouquinho... Quase tudo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fazendo as Unhas

















Tudo começou com uma olhada no espelho, que determinou o fim do cabelo.

O momento que a vaidade e o orgulho próprio são mandantes da degola a tesouradas dos fios de cabelo revolucionários, que se recusam a continuar compondo a diária procura de estar bem para o sexo oposto – ou você mesmo.

“Preciso cortar, tá foda.”. A hora do abate das madeixas é sempre sem volta. Quando essa decisão é tomada, a fome é por um lugar numa cadeira giratória com uma toalha de plástico que pouco adianta para evitar de te deixar pinicando o resto do dia.

E juntando a fome com a vontade de comer, saí no glamouroso horário de almoço da Vila Olímpia a procura de um lugar para saciar meus roncos de vaidade.

Fachada nova, recepcionista nova. Ao invés de Neide, Neusa, ou alguma variante do “Nê”, fui recebido por uma plumosa e colorida Drag Queen.

- Opa... Mudou o nome daqui?
- Mudou, querido!

O novo lugar prestava homenagem à Santíssima Trindade Musical Gay. Sentada a direita de Madonna, toda poderosa, está Rosana, com seu one hit wonder “Como uma Deusa”. E logo ao lado, a atriz e semi-travesti Cher, que emprestou o seu nome ao salão.

E é no “Salão Cher” que entram as unhas.

Nada de cabelos pelo chão, ou mulheres lado a lado com um abajour na cabeça fofocando sobre a inédita novela que acaba em casamento e é gravada no Leblon. Mas manicures. Muitas, milhares! Um batalhão delas perfiladas em suas cadeiras, lixando, pintando, esmaltando unhas de mãos e pés com separadores de madeira entre os dedos.

Um cabelo cresce, perde o corte, entra na orelha. Mas e uma unha? Unhas sujam, emprestam faixas brancas às pontas dos dedos. Mas mulheres tratam elas com o mesmo cuidado que tem com suas madeixas, com a diferença que são cuidadas semanalmente, por algo em torno de 15 reais.

Se não tiver roxo esverdeada, comprida e cheia de terra ou em carne-viva de tão roída, homens simplesmente não reparam. Melhor: não se importam.

“Eu me visto para as mulheres e me dispo para os homens”, diz a citação.

Vale quase o mesmo para as unhas femininas. Uma unha de esmalte na cor certa e uma cutícula na medida é como a lojas Marisa: de mulher para mulher. Ela completa sua beleza, mesmo que só para ela (ou elas). Um item essencial para completar uma bela roupa, para uma bela ocasião. Não existe vestido de festa chique sem unha feita antes.

Por isso, sua grande contribuição para agradar o sexo oposto está na auto-estima, no se sentir bonita, gouxtosa. A metade da receita para a irresistibilidade de uma mulher charmosa.

Homens tem poucos recursos para ficarem bonitos além do que sua mãe ou a mãe natureza lhe deram. A roupa certa, a barba, o cabelo, compondo um certo estilo. Do que os olhos vêem, limita-se a isso. O resto é combinado com seu papo, seus gostos e os demais itens de personalidade que compõe o mojo para aquela que lhe dedica algum suspiro.

Mulheres tem superfícies de pias e armários abarrotados de truques e alternativas. Decotes, estojos de maquiagem, diferenciados cortes e tratamentos de cabelo, vestidos tomara-que-caia, saias... e unhas.

Belas, reluzentes, esmaltadas e lindíssimas unhas.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Dá um Caldo













É recorrente no universo masculino, principalmente em bate-papos regados a café, água, suco, chopp ou ar, conversar sobre a gostosura da mulherada alheia. E assim como um frango de granja, nada delas deixam de ir à mesa. Comenta-se sobre tudo: a bunda arrebitada, o peito que o decote emoldura, o pescoço que incita farejadas a queima roupa, narizes, coxas, dedos, bocas… Nada escapa do aguçado olhar masculino e sua descrição engolindo salivas.

É bobo, superficial, é machista. Mas não existe ocupação mais divertida e bacana do que comentar com os coleguinhas as curvas que desfilam caminhando em linha reta. Homens são seres visuais, está no DNA, no instinto. E para nós, assim como o fotojornalismo premiado, uma imagem diz – e anima - muita coisa. Vide os primeiros exemplares de Playboy comprados aos 13 e escondidos embaixo do armário da pia (e que no meu caso, tiveram um triste fim quando a empregada decidiu lavar o banheiro).

Uma mera visão de uma barba por fazer e charme por conhecer caminhando pela rua é muito pouco para uma mulher. Não que desgoste de olhar, mas não excita nada além de algumas breves olhadas imperceptíveis à sensibilidade masculina. Para elas, melhor que ver, é sentir. Como bem já cantou Marisa Monte, bom mesmo é um corpo pesando sob o seu.

Podem até ter razão, mas para nós na maioria dos casos, basta um peitão. Para cada corpo feminino analisado existe um quase infinito leque de linguajares e termos técnicos, de conhecimento de qualquer um que vê muita graça em cenas de beijos lésbicos. Cavala, mignon, camarão, gordelícia, creme… São muitos os nomes que carimbam e dão os acordes dos corpos de violão (ou violão-celo) que fazem seus shows por aí. Mas entre todos eles, o mais interessante só podia derivar do melhor dos adjetivos ao tipo físico: o elogioso “gostosa!”, ainda melhor quando dito com X e a boca cheia.

“Gouxxtosa!”. O que um americano descreveria com um simplório “oh man… she´s so hot”, pro brasileiro tem o charme de um sambinha bem feito. Saboreamos nossas musas como quem fecha os olhos como uma garfada de feijão temperado. Um prato bem feito provoca um apetite muito parecido com o daquela maravilhosa que arrasta olhares. Por isso, o gostosa.

E quando ela não é tamanha beldade? É gostosa sim, merece as sete letras. Mas não por completo. Tudo no lugar, menos alguma coisa. Um olho meio de mal com o outro, uma bunda que levaram e nunca mais devolveram, um sorriso cujas gengivas são maiores que os dentes pequeninos. Para definir essa misteriosa e tão pessoal figura, novamente nos apropriamos de mais um termo culinário.

- E a Florinda hein Jair, que se acha?

- Ah cara… Ela dá um caldo.

Muito longe do retangular e insosso caldo Knorr, na culinária o caldo tem papel fundamental para dar o sabor que faz comer embaixo da mesa. O caldo é a esperteza do chef de mão cheia. Aproveita o suco, o resumo, o que derreteu do cozimento da carne ou frango entre azeite, cebolas e outras delícias de cheiro bom para os próximos pratos.

A mulher “que dá um caldo” tem algum defeito que não agrada o paladar comum, mas tem a sua gostosura própria. Algo inexplicável, aproveitável, que queria ou não, tem o seu vapor – ou valor - quando se abre a tampa.

O fato é que a mulher que se namora e o prato que se escolhe dependem igualmente da sensação que se passa quando em contato com a língua. O que existe de intragável em uma azeitona para um, é o toque indispensável para a empadinha de outro.

Já o caldo é uma escolha unânime da roda de conversa gastronômica. Um consenso entre todos que o objeto de análise tem sim o seu valor, dá o seu caldo suculento e saboroso que combina com todo um cardápio.

O caldo pode não ser o prato principal, mas rende por muitos jantares.

domingo, 12 de julho de 2009

Diálogo de Domingo











No quarto com a penumbra de uma persiana dormem dois amigos. Um na cama de casal, outro numa caminha de solteiro. Procurando o sono, acordam. O rapaz da cama de casal estica o pescoço entre seu ninho de cobertores, vê o amigo e deita-se novamente, de olho no teto.

- Caramba, você que tá dormindo aí. Achei que fosse o Vitão.

Com a voz empastada de de sono, Ari responde de olhos ainda fechados:

- Não, o Vitão é muito grande pra essa caminha.

- Haha é memo.

- Que horas você chegou?

-Putz, umas 4 acho.

- Eu cheguei umas cinco. Você viu que levei sua jaqueta né.

- Vi sim, valeu! Fiquei procurando com a menininha, aí vi sua mensagem e fiquei sussa.

- É mesmo! Vi que você pegou ela, haha. Boa menino! Daonde você conhece?

- Ah da facul, amiga da namorada do Alê. Já tava interessado... Aí veio ontem na balada, e pimba.

Pablo o ergue os braços, colocando aspas maiores à sua citação:

- “Veni, vidi, vici.”

- Haha isso mesmo!

Ari fala isso orgulhoso e contente. E continua narrando seu conquista:

- Ficou enrolando... Tentava, ela esquivava... Aí levei para um canto, não falou nada...

- Ah! Quem cala consente meu amigo!

-Exato. Aí peguei. E veio a surpresa.

- Opa! Conta pra nois!

- Fogosa cara, puxava meu corpo pela camisa, pra chegar mais perto, roçando quadris.

- Ah, com essas o judô vem a tona até na parede da balada.

- É... Só faltou o ippon! Há!

Ambos riem. Silêncio. Lá fora passa um caminhão barulhento, saculejando uma caçamba de entulho.

- Cara, que ressaca. Parece que fui atropelado por um desses.

- Eu bebi bem também ontem. Mas você tava muito louco.

- Tava. Foram 100 pau só de cachaça. Mas uma hora que eu vi que tava muito bêbado eu segurei a onda.

Passa a mão no rosto, tentando tirar com os dedos a dor de cabeça que latejava nas suas têmporas. No meio da movimento, para e olha para a palma da sua mão, curioso.

- Caramba, tem um cortinho na minha mão.

- Como você fez isso?

- Ah, acho que dançando break lá na pista. Num vidro.

- Hahaha! Toda vez você faz isso.

- Ah pelo menos dessa vez não subi no palco.

- Haha! Não por falta de tentativa, seu merda!

- E aquela menina, te mandou mensagem?

- Mandou, mas meio seca, xoxa...

- Ah, ela tá muito fria pra tá na sua.

Silêncio.

- Preciso de uma coca, gelada.

- E frango de televisão.

- O kit ressaca! É bom que sobra rango daí.

- E final de semana tem mais.

- Frango ou história pra contar?

- Os dois meu amigo. Os dois.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Calcinha no Box













Seguindo o ritual habitual, Vamberto gira seu quadril na cama, colocando os pés descalços para fora. Fica sentado um instante, remoendo sua saudade do edredom. Leva as palmas da mão ao rosto, esfregando os olhos e bochechas. Suspira, toma coragem, e levanta. Caminha arrastado, vestindo uma samba-canção xadrez alaranjada que cobre metade de uma das nádegas.

Faz um resgate preguiçoso e segue para o banheiro. Aproxima-se da privada bocejando. Logo antes de despejar seu alívio em forma de liquido amarelado, trava a bexiga.

"Cacete, quem abaixou a tampa?" – resmunga.

Num gesto rápido e aflito, ergue a tampa e alegremente volta a esguichar o seu mijo. Feito o serviço, coça a cabeça – isso mesmo, sem lavar a mão – despe-se e entra no box. Pânico. Com seus olhos arregalados, ele vê. Ali, pendurada na torneira, uma calcinha bege, de renda, úmida como um coador de café recém usado.

Um turbilhão de ex-namoradas passa pela cabeça de Vamberto, num slideshow direto do túnel do tempo. Marli, Soninha, Marcelle. Todas nas mais diversas situações. De roupa de gala no baile, de bermuda passeando no parque, com o seu pijama de flanela. Mas nunca no seu banheiro. Não assim, não pendurando calcinhas!

“Vou conversar com essa empregada. Que quê é isso? Calcinha no meu box. Eu tenho vergonha de deixar cueca freada, e ela me larga uma calcinha no chuveiro? Que isso!”.

Se ensaboa e se esfrega com força, quase com raiva. Sai do box e se enrola na toalha, batendo a porta de plástico fumê.

De toalha na cintura, chega perto da pia e estica a mão para alcançar sua escova de dentes. E a surpresa, sem lhe dar trégua, só mostrou um par de escovas. Levemente inclinadas, dando um beijo de cerdas no mesmo potinho de acrílico. Segura e olha para ambas na palma da sua mão, perplexo. Cuidadosamente, devolve no pote e se agacha devagar, com a velocidade de um praticante de Tai Chi Chuan. Num rápido movimento, abre o armarinho embaixo da pia com força, dando de cara com um cubo de Sempre Livre Flexi Abas. Não um só, vários. Um estoque! Ergue, olha e revira a pia – perfuminhos, maquiagem, potes enfeitados com bolinhas de algodão.

Olha para o espelho e vê um homem ofegante, de cabelo molhado, catatônico. E no reflexo, uma mulher sentada no vaso fazendo xixi.

“Que foi Vamba? Parece que viu um fantasma”

A mulher olha pra ele com um meio sorriso, com afetuosa curiosidade. Vamberto não responde, só olha para ela, calado. Tudo que ecoa no banheiro é o som da fina cachoeira na porcelana.

Ela olha de volta, já achando que tem algo de muito estranho no seu marido.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Marcelle Night Out



Sexta feira, 9 e meia da noite. Para muitas mulheres, a hora da verdade.

É hora de rímel e batom, de delinear com precisão cirúrgica o contorno das bandeirolas do flerte, que tremulam e sacodem ao vento para mostrar ao cego, surdo e mudo do macho alfa ou Beto (conheci um que era muito bonitinho) que ali tem uma Mulher.

Nessas noites de lua cheia (peraí, São Paulo tem lua?) mulheres cheirando a sabonete com hidratante espalham peças e vestidos pela cama, escolhendo com um turbante de toalha como ficar linda para mais uma noite de procura, mesmo que não tenha intenção alguma de encontrar alguém. (ou com essa mentirinha muito bem construída para si mesma)

Tudo pronto, uma checada no espelho, preparando o Avião antes da decolagem. Peito? Check. Cabelo? Check. Mãos? Check. Agora, o gran finale. O perfume. O cheiro que vai misturar com nossos ferimônios e puxar como uma mãozinha de um enebriante vapor narizes e bocas masculinas entreabertas. Uma esbaforada no ar e um passo a frente empinando o queixo, como uma maratonista da sedução cruzando a linha de chegada. Tudo para chegar ao lugar mais alto do pódio, mais fácil de beijar se usar um salto bem bonito.

Olha. Tentei. Já foram três paragrafos no capricho. Mas quer saber? Não levo jeito para esse negócio de crônica, narrativa ou texto. Escrever tudo aquilo ali em cima foi tempo! E sinceramente, qualquer parágrafo que a barrinha piscante vá e volte mais de três vezes parece mais indecisão do que escrever para o “GatoBH” (recomendo “solteiros 30 anos”, do UOL). Tudo parece muito bonito, mas na hora de contar assim, com palavras, fica difícil. No Sex and The City a Carrie escreve muito bem, conta da sua vida com graça e leveza, uma maravilha. Mas ganha em dólar e recebe um par de sapato para cada fala que erra. Aí é fácil!

Quero é contar minha história. Acho que é o que importa. Né não?

Agora que você sabe o que acontece com todo o Brasil solteiro, te conto o que esse dia é para mim, que também é solteira. Precisamente, o que foi faz duas semanas. Para Marcelle, (ah sim, muito prazer!) essa sexta-feira foi dia de supermercado. “Nossa, que encalhada”, você pensa. “Pelo menos não tenho namorado brocha”, eu penso. “Que grossa!”, e eu penso numa desculpa. Mas não sou encalhada. Acontece que exclusivamente nesse dia, a Dé, a Rê e a Má tinham saído, cada um para seu canto. O Carinha da Academia, o Paquera do Trabalho e o Pegueti da Balada haviam sido convocados para uma noite de diversão, prazer e cartão de crédito (não necessariamente nessa ordem), me deixando sozinha para a noite.

E eu? Bom eu tava bem assim, sozinha como teclo agora, mas sem o cigarrinho no canto da boca - meu péssimo hábito dos tempos de debutante. Sexta, minha amiga, era “Marcelle night out”. Aluguei um filme bem animado, Meu Primeiro Amor, e segui para o supermercado, onde faria um romântico jantar a dois, eu e meu ego com vinho e queijo francês. Tinha acabado de sair do trabalho, com bolsa debaixo do braço e dos olhos. Estava cansada. Cansada de tudo. De homens cafajestes, que são bonzinhos e perdem a graça. E de homens bonzinhos que na verdade são os piores do mundo mas tem toda graça por serem cafajestes, e por isso, acabam por uma estranha coincidência a perder seu número todo dia seguinte. E para coroar, te fazem esperar sentada até o dia que a encontre, sem fila indiana ou retirada de senha, mas pronta para levantar quando gritam “próximo!”.

Essas coisas que acontecem com minhas amigas, nessa simplicidade inerente a toda mulher.

Fica registrado nesse papel que não pensei em tudo isso enquanto caminhava pelos supermercado. Foi tudo muito mais rápido. Se você olhasse pela camera de segurança ia ver que passei pela entrada, com duas portas automáticas se abrindo ao meu charme, peguei minha cestinha e fui direto a sessão gourmet. Segui até a prateleira, repleta de vinhos de uvas e safras variadas. Aiai. Será que lá havia a minha? Um belo rótulo, com uma letra bem serifada e sem celulite descrevendo para sua seleta clientela de apreciadores “Marcelle Cabernet Souvignon Moulain Rouge, safra 1978, mas com uma garrafa de 22 anos. Um belo exemplar de Barueri, feito de uvas quase maduras, muito doces e macias ao paladar.”

Risadinha tonta. Como uma camponesa a fazer xixi na moitinha, elegantemente me acocorei em frente a prateleira, percorrendo com os olhos a parte inferior da prateleira. O cheiro forte dos toletes de parmesão, do sapólio industrial que lustrava o chão, do maderado cheiro de loção pós barba, tudo... Loção pós barba? Viro lentamente ao pensar essa última frase. Bem acima, ele. E-L-E. Mais que um gato, um felino. (eu sei que é a mesma coisa, mas só falei isso para você entender bem o quanto ele era bonito.) Barba por fazer, olhos verde meio azeitonados, desses que ficam mais claros quando batem a luz. E mesmo com naquela luz fria e hospitalar do supermercado, ficavam lindos. E lá estava ele, parado, olhando para mim. O que ele queria? Pedir licença? O meu número? (do celular ou do manequim?) Um sorriso se abria lentamente, como uma persiana que deixa entrar a luz dourada de uma manhã de domingo. (não foi bem assim, você sabe. Mas serve para efeito de comparação.)

Me ergui com toda compostura do mundo, quase tombando para trás num súbito desequilíbrio (faltou por a mão na testa e se jogar para o amparo de seus braços). Sorrisinho para disfarçar o ocorrido, empurrada de cabelo para trás... (mostrar um pouco de pescoço, tá indo bem Marcelle, continue assim.)

- Oi, tudo bem?. - ele diz entre a sua persiana. Que comece a paquera!

- Tudo bom e você? - Respondo com aquela simpatia calculada.

- Tudo bom... Os olhos de azeitonas mudam do meu rosto, para a prateleira. Voltam para mim. Está procurando o que falar. Pode vim amigo, que tô preparada.

- Procurando um vinho?

Por mais óbvia que seja a pergunta, eu acho o máximo e concordo com balançar afirmativo de cabeça, acompanhado de um sorrisinho de fingida surpresa. Duas opções. Ou ele leu isso na sessão “Dicas pra catar a mulherada” enquanto esperava o seu corte no barbeiro, ou ele realmente se interessa por vinhos, comida e mulheres bonitas, o que explica ele estar ali falando comigo. Independentemente da resposta, tudo que queria era uma gravata borboleta e um bloquinho de pedidos. “O senhor aceita um Marcelle Cabernet Souvignon?”

Aceito a sugestão do Persiana. Aliás, poderia ser uma belo Sang´de Boá que estalaria os lábios depois de dar um gole do mesmo jeito. Ele ainda se ofereceu para levar a cestinha, passando a frente para indicar o caminho. Que homem! E que bunda! (sempre gostei de calças de terno, que conseguem ser justas sem serem de bixona). Chego ao caixa, ele já posicionou as coisas na esteira, caindo por terra a teoria que deveria correr mais numa dessas.

Estica os braços torneados e bem educados, pega o primeira garrafa e passa pelo leitor de código de barras. Pega um queijo e repete o movimento. Que brincadeira tonta! Deve ter lido naquela mesma matéria “como catar a mulherada”, provavelmente na sessão “seja engraçado, sempre cola”.

Me dá um sorriso, mais tímido. Deve ter visto que não deu muito certo. Pega o outro queijo, e com o BIP do laser lendo as barrinhas pretas que vejo. Pendurado no pescoço, um “posso ajudar?” gravado em caixa alta sob o plástico laminado do crachá.

E ali fica, igual a um pêndulo balançando de um lado para outro, como que dizendo:

“Hoje não Marcelle. Hoje não.”

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Ctrl S

Sentado a frente de um word em branco, desafiado pelo “documento 1” nascido de um clique numa folinha de papel pixel. Já era tarde da noite quando o azulado do monitor iluminava seu quarto; uma página da casa-cláudia decorada com cama, armário e escrivaninha.


Olhou a sua volta, inclinando as costas e a cabeça para trás. Culpou seu quarto por alguns segundos. Talvez se a porta lesse “detetive particular” e uma loira cúmplice entrasse em câmera lenta, seria diferente. Rechearia suas páginas de talento e entusiasmo, iluminado por um foco de luz cortado ritmicamente pelas pás do ventilador de teto.

Infelizmente tal inspirador clima noir era longe de sua realidade. O retiro criativo desse escritor era um quarto branco e sem sal como sua comida. Nada de filtros contorcidos num cinzeiro, ou xícaras com um fundo de café frio e açucarado. Sentado na sua mesa, tudo que o aspirante a narrador vestia era uma arejada samba canção, despido de criatividade há tempos. De cotovelo apoiado na mesa e dedão encaixado nas têmporas, espremia sem sucesso uma idéia de sua testa.

O bloqueio criativo havia dado um golpe e deposto toda liberdade criativa. Até a madrugada, confiável inspiração aos apaixonados e artistas, tentava em vão soprar idéias a um coitado que suplicava sua ajuda. O rapaz imaginava tudo, escrevendo nada. Tudo que via era a solitária barrinha de texto, que piscava antecipação como se esperando o tiro para sair em disparada. E num lampejo, foi o que fez – deixando na sua corrida letras, vírgulas e lembranças.

Segundos antes de mexer seus dedos, o zumbido das ondas na praia flutuou pelos seus tímpanos, trazendo com ele o gelado da ansiedade e da brisa do mar.

Meu calcanhar fazia pequenas fôrmas côncavas, deixando na areia úmida colheradas de servir sorvete. Caminhava a passadas firmes, até então o único movimento consciente e seguro naquele passeio. Paramos, olhando nos olhos antes mesmo de se virar. A simplicidade de tudo assustava. Restava decidir para que lado inclinar duas bocas, já ligeiramente entreabertas.

Foi um luau de noite nublada que me trouxera até ali. Agora há pouco, antes de se aventurar na caminhada, estava sentado entre amigos e conhecidos, todos com suas cervejas e intenções com o sexo oposto logo a mão. Conversas e risadas sondavam interesses em comum e beijos que dariam certo, na busca por paixões intensas o suficiente para passar a noite. E eu, sentado num toco de madeira, saboreava o malte de minha cerveja - amarga como o medo de ficar sozinho.

Fechei os olhos para um longo gole, concentrando no líquido que escorria para o ralo da garganta. Abri-os devagar, focalizando num fade lento uma suposta figura feminina. Uma súbita injeção de ansiedade repeliu minhas pálpebras, no bom e ridículo arregalo de surpresa: do outro lado da fogueira, ela. Rindo, enquanto empurrava o canto da sua franja para trás da orelha.

Por pouco consegui segurar um suspiro, mas o deixei escapar de um jeito um tanto quanto afeminado. Ah.. ela. Despertava em mim uma paixão escolar de desejo universitário. De querer entrelaçar seus dedos e subir as nuvens com um beijo na bochecha, a mordiscar seu pescoço por uma tórrida tarde refugiada num edredom.

E assim, sempre, que o agradável inesperado toma forma. Perdido em divagações de amor, cerveja e desejo platônico, não sequer notei justamente quem olhava sem fingir desinteresse.

Após exatos quatro longos segundos de contato entre pupilas, ela se levantou, sorriu com seus olhos e caminhou sozinha para o escuro da praia. Me conheço muito bem para compreender o valor de uma injeção de confiança, e não hesitei em levantar antes que a insegurança me forçasse a escutar outro violão do Legião Urbana.

O calor da chama logo ficou para trás, e eu a alcancei com a determinação de quem não tem a mínima idéia do que dizer. Sentia a areia entre o vão dos dedos, concentrando em caminhar como um bípede humanóide antes de cumprimenta-la.
Um aberto sorriso e um “oi”, recíproco e sincero. Seu sorriso encantava, com uma malícia que ao mesmo tempo fervia meu sangue e me derretia como manteiga.
Paramos, frente a frente. O escuro azulado me permitia delinear as silhuetas de um vestido branco, charmosa até no modo que segurava suas sandálias pelas pontas dos dedos. Tudo estava quieto. Um silêncio gritante, cortado pelo compasso de um bumbo marcado no meu peito.

O tempo estava tão devagar que o próprio zumbido do mar ficou mudo. A inércia do desejo nos inclinou para frente, nos aproximando devagar e de olhos semi-cerrados, sentindo o calor de uma úmida respiração em retorno.
O mar, escuro e pontilhado de estrelas, se esforçava para puxar-nos pelo calcanhar, sempre recuando para pegar mais impulso.


Suspirou. Fechou a página, agora completa por letras Times. Levantou-se de sua cadeira devagar e pensativo, ainda com o gosto de outra saliva molhando seus lábios. Caminhou para fora do quarto, lembrando de esticar o braço para trás para desligar o monitor.
O movimento brusco deixou o aparelho a balançar, como uma cadeira de avó fazer tricô. E a tela, antes brilhante e azulada, viu-se escura e pontilhada de pixels, ciente que nunca se retorna de um recuo – mesmo que seja para um impulso.