terça-feira, 1 de junho de 2010

Um Segredo









Pelo que vi de filmes e li de orelhas do famoso “O Segredo”, o que importa é querer muito alguma coisa. Mas muito. Querer mais que o Corinthians quer a Libertadores, querer mais que todos os outros times do Brasil que este dia nunca chegue para o bem geral do sarro. É o “querer” é o que tem a força nessa história toda. É só querer que o universo, tão bonito e misterioso como capas de CDs nos mostram, conspira a seu favor. Queira bastante que ele arranja o blind date entre a sorte e o mais preparado para conhecê-la: você.

A história toda se resume na Lei da Atração. Segundo o livro, você emite sinais para o breu do Universo pontilhado de estrelas, que eles atraem tudo de volta como um imã Acme, daqueles em forma de U que o Coyote usa em armadilhas para o Papa-Léguas.

O raciocínio da coisa é que basicamente tudo é uma questão de pensar positivo. Ou seja, ter confiança. Oras, desde que o mundo é mundo a confiança é o que rege o sucesso de toda e qualquer pessoa. Da entrevista de emprego ao restaurante japonês de sexta a noite, confiar no taco e evitar gagueiras assina contratos e contas para a noite se apagar à meia luz.

O fato é que acreditar muito em algo ou em si não é suficiente para colocar o Porsches em garagens ou aquela morena no seu banco do carona. Mas ajuda a contribuir para que este dia chegue, como tijolos assentados aos poucos em uma parede. Uma oportunidade de emprego bem aproveitada, um galanteio bem acertado - pequenos passos que encurtam os minutos para que o esperado dia que zera a contagem até o próximo.

Penso que o propósito do “O Segredo” se mostre eficaz para coisas mais pontuais, como querer o carrão ou o sorriso que te derrete emoldurado por longos cabelos lisos.

Mas e para Felicidade? Isso mesmo, o que todos procuram e querem mais que lasanha ou qualquer outro prato que venha fumegando enquanto se saliva. O fato que felicidade verdadeira, meu amigo, não é suficiente para um mero querer muito.

Felicidade é nada mais que o resultado azul e positivo da conta entre tudo que acontece na sua vida. Pensar um isolado “quero ser feliz” todas as manhãs da sua vida só tira seu foco de todos os pontos que você precisa para ter esse resultado.

Entre todos os itens que entram na conta da felicidade, o numeral “pessoas” tem peso fundamental. As pessoas que você divide frações de seu projeto de vida, sejam amigos ou amores, são determinantes para uma conta positiva.

E começa por cada um. Curtir sua companhia, rir de si mesmo, cantar no chuveiro repetindo besteiras ditas é o primeiro passo para a Lasanha que todos procuram. Dá sabor à presença das pessoas que você escolhe para estar perto. Abre a porta para quem chega trazer o azeite, a receita especial para o molho de tomate.

Tudo que é preciso ser feito é tentar ao máximo se cercar de pessoas que te fazem bem. O raciocínio é simples: se te provoca um sorriso quando vem qualquer lembrança, mantenha por perto. Mesmo que subtraia às vezes, a alegria indescritível de fechar o balanço no azul não é segredo para ninguém.

domingo, 25 de abril de 2010

Sou Casado e Amo Minha Esposa













De frente para o círculo desenhado no espelho de um vaporoso banheiro, o quarentão Dalton se prepara para mais uma noite.

Perfume, check com borrifadas estratégicas.

Camisa social sob medida, meia aberta. Check com um botão aberto novamente.

Barba propositalmente por fazer. Check passando a mão no rosto como num legítimo anúncio da Gillete.

E por último e mais importante, a aliança. Check com uma baforada no dedo anular, na tentativa de fazer cintilar ainda mais o dourado do mini bambolê.

Avisou a mãe que estava de saída e caiu na noite - ou na night, quando a trabalho no Rio.

Há 12 anos que Dalton era um fiel marido e dedicado pai de uma família planejada nos mínimos detalhes para parecer existir. Seu matrimônio era tão bem construído que ele exalava a confiança de um homem bem casado. E as mulheres farejavam.

Na sua mesa de trabalho, um belo porta-retrato emoldurava Juninho, o seu moleque de 11 anos fã de futebol que ele encontrou numa rápida busca no Getty Images. “Vai dar trabalho esse menino”, dizia o paizão orgulhoso. No fundo de tela, Aninha. A princesa do papai. Recortada e escaneada de um anúncio de sabão em pó.

Nos intervalos do cafezinho, arrancava suspiros femininos detalhando o quanto se apaixonava toda dia por sua esposa. Do quanto gostava do seu rosto amassado logo cedo. E como há 12 anos o seu despertador era cobri-la de beijinhos.

“- A meta é mais difícil que a desse mês: cobrir 100% do seu corpo, só de beijos”

E ria com a roda de mulheres, sustentando o olhar por pouco mais de 3 segundos com a nova contratada do departamento financeiro.

Obviamente, era um sucesso. Romântico, marido dedicado, bem sucedido. O perfil de homem que abarrota a caixa de entrada de Santo Antônio.

Com seu terno bem cortado e aliança bem colocada, enlouquecia as mulheres com o bônus de ser inalcançável.

Afinal, por trás dessa imagem Dalton era um sedutor. Um sedutor discreto. Com olhares firmes, mas rápidos. Sem o desespero imediatista do solteiro, contava com a tranquilidade de um homem casado, bem resolvido. E com a descrição de um mineiro, “fazia a rapa na firma”- palavras de Josias, seu porteiro e único confidente.

Nada de carros importados ou passeios extravagantes, Dalton impressionava pela aliança. Aliás, o primeiro adereço a colocar no seu Renault Scenic vinho foi um adesivo de “bebê a bordo” no vidro traseiro.

Driblava qualquer princípio de comprometimento com álibis e desculpas para todos os momentos:

“- Poxa... Sábado eu não posso, minha querida. O Juninho tem a final e eu fiquei de levar todo o time campeão no McDonalds”

“- Hoje a noite o Beto e a Sônia vão jantar em casa. Soube agora, não vai ter como escapar. Me desculpe, meu bem.”

“- Acredita que a Regina quer que eu viaje para a casa da minha sogra, bem no carnaval?”

Até que o inevitável aconteceu. Dalton se apaixonou. E o pior (ou melhor): perdidamente. Cristina não pedia para acabar seu casamento, cobrava exclusividade ou ligava de madrugada contando “toda a verdade” para sua já sonolenta mãe. Para ela, tudo que lhe bastava era seu amor.

Depois de anos sustentando uma mentira por amores pueris, por simplesmente pontuar em um placar, Dalton se viu de peito aberto por estar com as mãos ao alto, completamente rendido pelo mais sincero dos afetos.

Dalton não teve outra escolha. Se encheu de coragem e resolveu tudo de uma vez por todas a farsa que era seu casamento.

Depois de meses de um divórcio arrasador, conseguiu se separar. Não queria ver Regina para não lembrar, pensou até em se mudar. Um lugar qualquer que não exista o pensamento em seus queridos filhos.

E assim, se mudou para a casa de Cristina.

"- Sabe Tina, fiquei ainda mais triste - e estupefato - quando soube que Regina já tinha um caso há anos com um empresário japonês, que conheceu nas aulas de pilates."

Se mudariam para Tóquio em semanas. E decepcionado, mas feliz por ter encontrado um novo amor em um momento tão difícil da sua vida, nem com a guarda do porta-retrato ele ficou.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Antes da Curva










Certa vez um amigo escreveu que esses 20 e poucos anos são como se você estivesse num carro.

“Um carro, que rodou entre destinos específicos por toda sua existência automobilística. Levou crianças para o ginásio, jovenzinhos para o colegial, guiou rapazes para faculdade. E agora ele pegou seu primeiro acesso para a rodovia. Uma estrada aberta, plana, com um misterioso horizonte para alcançar e com mais cobranças que os pedágios da Bandeirantes. E quem dirige é você.”

Pois olha lá eu na minha caranga, os vidros abertos, o cotovelo esquerdo tomando vento, os óculos escuros emprestando o intrigante mistério de não saber direito para onde meus olhos focam. A minha frente, o mesmo horizonte de expectativas. Tudo certo pelo incerto.

O sentimento do princípio de aventura quando se tem um diploma na mão ainda é o mesmo, mas com algumas diferenças. Agora, existe a consciência de que todo carro precisa ser abastecido com responsabilidades.

Para seguir viagem o tanque precisa ser completado com vida adulta, aditivada.

Se antes o receio era pelo incerto, hoje é pelo medo de ficar por um desses Postos e nunca mais sair. De se deixar vencer pela comodidade da rotina, esquecendo que o real propósito é chegar a um destino que recompense as noites dormidas planejando a viagem. Deixar o necessário crescimento profissional e os dias de sol dos finais de semana – sim, até ele - tomar o foco de pelo menos tentar realizar o que você acha que seria bem legal se acontecesse.

Anseio de encostar num munícipio à beira da estrada e nunca chegar na cidade que deseja. Mesmo sem ter certeza qual delas é.

E agora, enquanto o carro acelera e os olhos de gato passam zunindo pelo chão, uma curva surge no horizonte e aparece claramente no mapa e nos portas-retratos da família.

Amigos que se casam, primos que fazem filhos. Que assumem a responsabilidade de uma família. E deixam uma pergunta. Será que depois dessa curva muda-se o meu trajeto? Melhor: será que ela faz parte do meu plano de viagem? O fato é que ainda tem tempo para esta curva dobrar pelo meu caminho. Mas uma coisa é certeza: seja quão acentuada ela for, daqui a pouco ela chega para mim.

A verdade é que não sei para onde sigo. Não existe voz artificial de GPS para dizer o caminho. Aliás, até perderia a graça da aventura. O jeito é manter as mãos no volante e continuar seguindo, com o porta-mala carregado da bagagem de anos bem vividos.

Sempre focado no trajeto planejado, aproveitando as belas paisagens e encarando os percalços dessa viagem da forma mais leve possível, mesmo de tanque cheio.

domingo, 7 de março de 2010

Gordelícia




















Isso mesmo, você leu o título. Ela é gordinha. E ela é uma delícia.

Ao contrário do estigma que as mulheres rotulam, não é só de bundas e peitões dignos de uma assistente de palco que vive o desejo e a libido masculina. Ali, entre as fantasias de loiras curvilíneas e morenas de corpos que tocam bossa nova, existe uma mulher que enche a cama, que tem carne para apertar, que tem um recheio digno de ser esmagado entre rodelas de chocolate e ser empacotado para vender como Negresco.

A gordelícia. Prima da mulher que dá um caldo, mas com uma pitada de pimenta e por que não - um tenro pedacinho de bacon.

Uma gordelícia não é simplesmente uma mulher com alguns quilinhos a mais. Nelas, as famosas “alças do amor” abrem portas para um sexo tão fogoso que assa carnes e peixes na churrasqueira. Melhor que isso, elas tem a explosiva combinação entre horny e carinhosas. E homens percebem - e valorizam - essa charmosa dinamite.

A história prova seu lugar de destaque. Expressada na arte e na música, o gosto pelas gordelícias inspira muitos.

Bon Scott, falecido vocalista do ACDC, após uma noite de tórrido romance escreveu “Whole Lotta Rosie”, uma verdadeira ode Rock N’ Roll às gordelícias. O colombiano Fernando Botero pincelou seu lugar entre os grandes pintando e esculpindo gordelícias com as mãos que com toda certeza já contornaram as mais belas formas. Até num plano municipal, a bela cidade de Americana, no interior paulista, decidiu receber seus visitantes com um portal que é uma clara homenagem a este belo estipe mulheril.

Deixemos para lá o debate sobre o padrão de beleza atual, que cultua um corpo que substituí as delícias da boa mesa por alface, e se der, uns cubinhos de torrada. Entremos no nosso DeLorean e voltemos muitos anos no passado.

Os quadros não mentem: antigamente as gordelícias eram o padrão de beleza. Comer bem e bastante era para nobres, para os inquilinos originais do Castelo de Caras. Quem morava mal e longe era magro, e até esculpido pelo árduo trabalho no campo. Provável dono de uma barriga tanquinho que roncava com frequência.

Hoje, num mundo que (pelo menos nas grandes cidades) todos tem acesso a pelo menos um prato de comida, o que é bonito é a falta de peso. Comer alimentos orgânicos, lanches de pão integral com queijo branco, sucos de 3 frutas com uma pitada noz moscada, que você sabe, é cheio de vitamina A.

Segue a mesma lógica de antigamente, mas de forma inversa. Os ricos e famosos que renovam seus votos de amor no Castelo investem para contratar um personal trainer e uma equipe de nutricionistas para ficar bem na foto.

Mas aí, quando o mundo conspira para incitar-nos a procurar o que está estampado nas revistas ou dançando ao fundo do Programa do Faustão, quando a marca do meu desodorante lança uma campanha pela “real beleza”, lá vem elas, as gordelícias, e acabam com toda necessidade de argumentação.

A atração por gordelícias está na sua autencidade, no uso do inconfundível charme feminino a seu favor, em mostrar que uma mulher gostosa vai muito além de um padrão de medidas para bundas, coxas e peitos.

Elas são provas vivas e levemente rechonchudas de como o charme feminino permite a adição de “delícias” para todo tipo físico.

Afinal, ela é uma mulher. E é uma delícia.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Mina de Ouro













A notícia se alastrou pela turma como fogo num rastro de pólvora que leva até dezenas de barris recheados do perigoso e inflamável pó cinzento. E explodiu tudo pelos ares quando chegou aos ouvidos e bocas das meninas que compõem a galera:

- Você viu que o Vandinho tá namorando?

Tamanho espanto tem motivo. Em todos os anos de faculdade e pares de anos mal pagos como recém-formados, Alessandro Couto Medeiros, o Vandinho, nunca foi de se deixar enlaçar pelo cinema de domingo e a garantia de pés quentinhos debaixo de edredons. O apelido, uma homenagem ao sedutor cantor Wando, traduzia sua fama de conquistador irreversível e completamente avesso a qualquer simulação de matrimônio que evitasse seus lábios de experimentar o gosto de vários.

Mas dessa vez era diferente. Vandinho mudara. Dizia ter encontrado a menina certa, que no seu palco agora só suas calcinhas lhe bastavam serem lançadas. Dani. Tinha nome de mulher gostosa - e realmente era. Olhos claros, corpo escultural, cabelos lisos e morenos sempre empurrados para trás acompanhando um arrebatador sorriso.

As meninas parabenizam o jovem namorador. Davam gritinhos quando ele confirmava a notícia, saltitavam e em seguida abraçavam o amigo, combinando mesas para 4 em restaurantes japoneses e feriados em Monte Verde.

Para os camaradas, a notícia nos primeiros dias foi completamente devastadora. Clima de Copa do Mundo perdida, de total desconsolo. O porto seguro da solterice, a referência, o último dos moicanos e telefones para se ligar em caso de término súbito, agora perdido para um par de seios e mini-saias.

Mas o choro foi logo engolido com cervejas e a simpatia de Dani e suas amigas: lindas, tesudas e disponíveis amigas. E para a alegria da turma, Dani era um craque. Como um meio-campista a distribuir passes milimétricos à destranbelhados centro-avantes, a senhora Vandinho tinha o dom de apresentar todas suas beldades com uma piscadela e um “vai que é tua, Taffarel”. Era escolher, e Dani armava a jogada para o mais belo dos gols de placa.

Não tardou para após o primeiro bar de apresentação à Dani e suas amigas, o compromissado Humberto jogar seu anel prateado ralo abaixo e voltar do banheiro terminado – e sorridente. E ele foi o primeiro de muitos. Solteiros, enrolados e namorados, todos os amigos concordavam com uma coisa: Vandinho havia encontrado uma verdadeira mina de ouro.

Vandinho estava cada dia mais feliz, encantado com as delícias do amor. Sorria pela rua, cantarolava no trânsito das 6 e meia, aumentava o volume do rádio quando tocava o tema da novela das 8. Dani lhe fazia bem, e o melhor: reservava um pouco de seu encanto aos seus amigos, apresentando – daquele seu jeito - novas lindíssimas amigas a cada fim de semana. Como na anual a viagem de verão, quando levou simpáticas colegas que trabalhavam no árduo mercado de modelos de biquini.

Tudo era alegria na turma, com todos se sentindo com peles feitas de favos de mel, no topo do seu jogo, chovendo em hortas que logo virariam plantações.

Tudo perfeito, até outro gigantesco barril explodir.

Era uma quinta-feira fria e chuvosa quando o conclave fora organizado. Sentados na mesa circular e de feltro verde, a alta cúpula dos amigos de Vandinho foi convocada com urgência. Gordinho, cujo apelido era “Roberto”, foi o primeiro a falar:

- Amigos, estamos aqui para apurar e decidir sobre algo muito importante. Para nós, para o Vandinho, para nossa vida sexual.

Com um gesto largo, Gordinho estende a mão para a diagonal com os dedos colados uns aos outros, dando a palavra com um pesar de chumbo na sua voz.

- Eurico, por favor.

Atualmente saindo com duas gemêas intercambistas da Suécia, apresentandas pela meia-campista, o tímido Eurico deu a notícia com lágrimas nos olhos. Dani, a namorada mais perfeita que um amigo já havia encontrado, foi vista com outro. Mão dadas, risadinhas, beijos entre lambidas de casquinhas de sorvete... A receita para um corno completo.

- Mas você tem certeza que era ela? - Em claro desespero e com lembranças da morena que quase rancou seu lábio inferior, Danilão faz sua pergunta de leite derramado.

- Era, cara. – um longo suspiro afunda o queixo de Eurico no seu peito – Era de dia, eu estava muito perto. Perto demais... Ela me viu.

Um silêncio aterrorizante invadiu a sala. Um antigo relógio de pêndulo cortava ritmado a total ausência de som que tomava o recinto. Eurico tentou continuar, mas não encontrou palavras. A doce Dani, sempre solícita, virou amarga e chantagista. Um dia após o fatídico encontro, Eurico escutou “Não é você, nem sua dieta errada e falta de exercícios diários. Sou eu.” da personal trainer que saía.

Um claro recado que instaurava um grave dilema. A verdade libertava Vandinho de seus chifres, mas levava com eles para todo o sempre as beldades apresentadas, bem como as que viriam a deitar de cabelos soltos em suas camas.

Cerveja gelada ou o suor lambido de lindos pescoços? Viagens de carro ou o trânsito parado por quem passeia ao lado? Amizade ou o sexo mais sensacional de suas vidas?

Um sacrifício havia de ser feito.

Com dor no coração e saudades da morenassa chef de cozinha que Dani lhe apresentou, Gordinho diz seu veredito:

- Temos que contar para o Vandinho. Tudo.

Os quatro amigos se entreolharam, e com a maior das forças de vontade, consentiram. Pela amizade, pela camaradagem, pelo amor fraternal ao irmão corneado.

Eurico ficou de engolir o choro e ligar para Vandinho, contando tudo. Tomou fôlego e começou a discar entre fungadas nasaladas. Logo antes de levar o aparelho ao ouvido, o celular explode com o apito de uma mensagem:

Oie! Preciso de um favorzão. 4 amigas vieram direto de Floripa para uma sessão de fotos e não tem onde ficar, acredita? =P Falei bem demais de vc e os meninos. Vcs podem recebê-las? É só por uns dias...

Iluminados pela pequena tela quadrangular, os quatro amigos se entreolharam.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Primeiro Encontro




















Ser ou não ser, eis a questão. Transar no 1o encontro ou não - vou no tesão ou sigo o “padrão”?

Ó dúvida cruel que assola as mulheres. Ainda mais quando quem está do outro lado da mesa à meia luz vale o lábio mordido após o gole de vinho e a ofegante ideia de usar os pratos como travesseiros e a toalha como lençol.

“O que ele vai achar de mim? Vai me achar fácil? Vai me achar quente? E o mais importante: ainda serei atraente para ele me ligar assim, de repente?”

Uma coisa é verdade: se oferecido, ele será prontamente aceito com o eterno sorriso juvenil que acompanha a abertura de um sutiã. Não existe homem no mundo que recuse sexo, ainda de uma mulher que ele também pensa em jogar na mesa desde o momento que ela entrou no carro e ele elogiou o seu perfume.

Contudo, o dilema a ser respondido é se isto faz com que essa suspirante noite de beijos no pescoço fique somente nela, terminando apagada como a luz que foi acionada para favorecer silhuetas.

Quando a intenção é uma noite, uma cama e só, tal leve preocupação não chega a virar um problema. O mundo dos relacionamentos evoluiu para separar o joio de uma one night stand do trigo de uma noite que a lua parece brilhar sob o olhar besta dos apaixonados.

E é exatamente aí que começa o problema: quando existe um interesse verdadeiro que o primeiro encontro vire o segundo e um buquê de flores depois de uma terça-feira cansativa.

Para um homem, quando seu interesse é genuíno (nesse caso, segue o critério “apresentável para mamãe”) o sexo torna-se a cereja de um bolo feito com nada de marzipã e muito sushi, bares e baladas, com creme de cartão de crédito e mensagens de texto. Um investimento que leva algum tempo e assuntos em comum.

Mesmo hoje, num mundo onde o sexo alcançou seu merecido status de prazer ainda possivelmente separado de afeto, ainda existe espaço para o romantismo.

Pode parecer que não, mas quando afim um homem valoriza sim a evolução natural de um relacionamento. Do primeiro beijo ao primeiro malho que abre botões - nem que tenham acontecido na mesma noite.

É completamente atemporal. Por ser tão bom, tão íntimo e tão desejado, para o homem o importante é que o sexo tenha a sensação de merecido, de conquistado, de que ele não foi mais um. Sejam em horas, semanas ou 500 dias com ela (mentira: 500 dias além de um filme, é muito. Mesmo.)

Mais que ser “rápido”, o sexo não pode ser “fácil”. Um sexo fácil demais pode fazer esse bolo não ter o mesmo sabor. Ou se for pra ter um sabor, somente o gosto daquela cereja que vai no topo. Gostoso, mas enjoativo e facilmente substituível por outra mais tenra e vermelha.

O fato é que não existe regra ou cartilha a ser seguida para acertar a hora de esticar os braços e apertar o interruptor enquanto beija. Seguir algum padrão para o amor – ou o princípio dele - só leva a outro: o fracasso.

Por isso, se a vibe, o clima, o momento, ou tudo mais que confluir para dar a certeza que o melhor a fazer é fechar a conta e subir do elevador às nuvens, que aconteça. Sem dúvida é o melhor a ser feito.

No final, o importante é fazer o tal bolo chegar à mesa e ser sempre, a melhor das sobremesas.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Diálogo de Elevador

















Dois amigos e colegas de trabalho chegam segunda cedo para mais uma semana de árduo trabalho e digestão (quarta-feira é o dia que andam um pouco mais para comer a fejoada do “14,90, à vontade”).

Ele, fã de bacon e lanches de padoca. O outro ele, fã de restaurantes que seu Visa Vale gasto por happy hours suporta até o fim do mês. Em comum, a vontade universal proletária de um aumento e um dia sem grandes estresses e a necessidade de jantar pizza na conta do chefe.

Enquanto os elevadores descem em contagem regressiva do 10 ao T, uma presença consegue a proeza de passar com elegância entre as catracas, estacando em frente ao elevador e mostrando seu perfumado (e extremamente beijável) pescoço, enquanto acompanha a descida dos caxotes metálicos içados por cabos de aço.

Com malícia nos olhos, é feita a pergunta que começa todas as semanas:

- Fala cara, como foi de fim de semana?

Mas o magnetismo da gostosura, de tão perto, tão ao alcance, desconcentra os pobres – e infantilmente felizes - trabalhadores.

- Foi ótimo cara. Viajei com a família. Hotel-fazenda. Bem tranquilo. Mas bem legal.

Falou tudo isso de olhos arregalados por uma hipnose, acompanhando os belos contornos que perfilavam ao seu lado. Se tentasse repetir que acabou de dizer não conseguiria balbuciar sequer uma palavra.

Com um meio sorriso, o garoto bacon responde com uma olhadela para as nádegas enrijecidas pelo salto alto.

- Puxa... Deve ter sido uma delícia!

Segurando o riso, o rapaz do Visa Vale responde à altura:

- Foi cara, foi muito bom. Comi demais, e bem! Deu vontade até de comer embaixo da mesa.

Mas o bacon boy é duro na queda. Sem tirar os olhos de sua musa, retruca.

- Aposto que nem aguentou comer tudo. Você sempre tem olho maior que a barriga.

Já entregando a risada pelo sorriso, Visa Vale tenta sua última cartada.

- Nada rapaz! A vontade era lamber o prato, de tão gostoso.

- Pô, que beleza. Fim de semana assim é sempre um tesão!

E rindo, os colegas bonachões sobem para mais um dia de trabalho. Longe de um aumento mas muito perto de pedir borda de catupiry na marguerita das dez da noite.

A gostosa ali fica, esperando o próximo elevador. Ao entrar e apertar o seu andar, tromba com uma colega de trabalho, que logo corta o silêncio do cubículo ascendente com uma pergunta:

- Oi amiga! Como foi seu final de semana?

E logo antes das portas metálicas juntarem-se em sincronia, a resposta:

- Ah, o de sempre. Broxante.