quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

O Casamento





















Orgulhoso, Gilberto revezava o olhar entre seus três filhos sentados pela sua sala. Não conseguia esconder um sorriso de dever cumprido ao observá-los. Tinham se tornado jovens adultos de caráter, trabalhadores e principalmente, pessoas de bem. Era isso. Aos 56 anos, tinha a feliz certeza de ter colocado no mundo pessoas de bem.


Mas aquela reunião de família não era para lamber cria. Tinha um propósito claro, um mistério o qual os três filhos aguardavam ansiosamente sua revelação: um inusitado convite “para uma conversa” em plena terça a noite.


E seguido do tintilhar da xícara no pires, ele anunciou.


- Bom crianças. Vamos direto ao ponto: vou me casar.


Silêncio. Sobrancelhas franzidas. Primeiro a digerir a informação, o caçula Pedro Henrique expressou sua surpresa com o estalar dos ovos que pisava.


- Puxa pai... Que ótimo! Já faz tanto que você e a mãe se separaram mesmo. Acho legal mesmo, de verdade. Mas...


- Mas com quem?? Você nem namora pai! – como um vulcão, a pergunta irrompeu de uma perplexa Mariana, filha do meio.


Com um sorriso maroto, o primogênito Felipe completou, orgulhoso:


- É a tia Regina né pai? Sempre suspeitei do que vi em Ilha Bela aquela vez. Tinha 11 anos mas não esqueço! Sempre suspeitei, seu malandro...


Gilberto escutava seus filhos com um sorriso sereno. E sem tirá-lo do rosto, continuou:


- Vou me casar com o Carlão, meu amigo do clube.


O sorriso maroto de Felipe se transformou numa expressão de choque. Atônito, o queixo de Pedro Henrique desmanchou no seu peito, sem vida. Se descontasse os olhos arregalados e a cor branco-sulfite de seu rosto, seria possível dizer que Mari era a menos impressionada. E logo perguntou:


- Pai, você é viado?


O patriarca suspirou serenidade. Já esperava por tal fatídica pergunta. Respondeu com a tranquilidade de um Dalai Lama, certo de sua decisão.


- Não filha, não sou. Sou hétero, como sempre fui. – respirou fundo, e continuou. – Acontece que nos últimos anos vinha me sentindo muito sozinho. Essa casa grande, vocês seguindo suas vidas... E queria uma companheira.


- Companheira pai! Companheira! Não um tiozão do clube! – Pelo ângulo de arqueamento de suas sobrancelhas, Felipe entregava seu desespero.


Mas somente com o olhar, Gilberto pediu calma. Continuou:


- Mas a experiência que tive com sua mãe e todas que seguiram dela só me mostraram que a convivência com uma mulher é insustentável. Vocês me conhecem, sou engenheiro, racional em tudo. E salvo o fator “sexo” e “carinho”, meu casamento com o Carlão tem tudo pra dar certo.


Os três se entreolharam. Esperança de ser uma pegadinha. Ou uma piada besta de um pai que nunca foi de muita graça.


- Me escutem e verão como faz sentido. Casado com Carlão terei todas as vantagens de um matrimônio feliz. O que nunca tive com sua mãe ou mulher nenhuma na minha vida. Poderei deixar cuecas pela sala. Esquecer datas e a existência da TPM. Comer pizza com cerveja numa segunda por que é bom e meu colesterol respeita isso.


- Pai, você enlouqueceu! O que vão falar na família, no seu trabalho?


Gilberto se animou. As perguntas só lhe davam mais certeza da sua escolha.


- Vão falar que nunca estive tão sensato na minha vida! Você fala de trabalho. Pois então. Esses dias cheguei em casa bêbado, cantarolante e com um perfume doce na gola da camisa. Errei, confesso. Sabe o que o Carlão fez? Sabem??


- Não pai, não sei. – Desconsolado, o primogênito só respondia com as mãos no rosto.


- Ele simplesmente me olhou, sorriu e disse: “era boa?”. “ERA BOA?”. Nada de pratos voando, noites na dureza do sofá, nada!


- Mas pai, então você quer um amigo. É isso! Só um amigo, um roomate.


- Não Mari. Quero um esposo. Alguém para chamar de meu. Para me receber em casa depois de um dia cheio com uma long neck gelada e comentários pertinentes sobre a última rodada. Reclamações? Só sobre o frangueiro do goleiro.


A cada resposta, Gilberto se empolgava ainda mais com seu plano perfeito.


- A TV não conhecerá uma novela. Dane-se quem matou quem! Na nossa casa, a louça poderá sim repousar feliz na pia por uns dias. Meu carro não aparecerá ralado, não existirão cremes além do de barbear na pia. E por falar de pia e banheiro, a tampa estará sempre levantada. Sem broncas. Sem cobranças. Sem...


- Pai! – o caçula perdera a paciência – Olha aqui. Se você não se descobriu gay, o que aliás aceitamos numa boa, você enlouqueceu. Ficou velho e maluco! Simples assim.


- Bom, pelo visto vocês não entenderam nada do que eu disse. E se não quiserem também, tudo bem.


Gilberto se levantou, entre orgulhoso e decidido.


- Eu vou embora. Podem ficar a vontade, a casa é de vocês. Mas eu tenho um compromisso. Combinamos há semanas de assistir a semi-final da Champions League e não posso me atrasar para o começo do jogo.



terça-feira, 23 de novembro de 2010

XV de Piracicaba
















Que o Brasil é o país do futebol todo mundo sabe.

Este belo esporte bretão se adaptou ao Brasil como um gringo em uma praia de areia branca a bebericar caipirinhas. São 800 clubes profissionais, 13 mil times amadores e uma rápida pesquisa no Wikipedia que só confirma uma paixão nacional que dispensa maiores comprovações.

Na vida social de um brasileiro, o futebol é a luz no fim do túnel da falta de assunto. Ele transita livre por todas as classes sociais, une opiniões e promove debates. Melhor que qualquer variação brusca de temperatura ou chuva inesperada para cortar o silêncio de um elevador subindo andares.

Futebol é chute de voleio que bate na trave e entra, é defesa de mão trocada aos 45 do segundo tempo, é o sorriso irônico ao colega de trabalho depois da rodada do final de semana.

Futebol é tudo isso. E muito mais. Mas não para Luiz Augusto. O rapaz nasceu com uma sina, um mal que não conseguia tirar, por mais que tentasse. Luiz era réu confesso de um pecado mortal que o acampanhou das aulas de Educação Física aos olhares perplexos em mesas de bares.

Para ele – pasmem - futebol era um esporte como outro qualquer.

Não que desprezasse por completo. Era como uva passa em uma torta de maçã: não fazia falta muito menos marcava presença.

Nessa última Copa do Mundo torceu com tamanha fé e afinco para a Seleção que quase convenceu. Xingava a televisão, bradava comentários como “Zagallo, coloca o Romário!”. Chegou a ficar verdadeiramente triste com a eliminação da Seleção. Mas entre nós: muito mais por que ia deixar de sair mais cedo do trabalho para churrasquear com os amigos.

A vida corria bem para nosso anti-heroí, que em anos de prática havia se tornado mestre em comentários genéricos sobre o tema e imperceptíveis mudanças de assunto na mesa do bar. Tudo ia tranquilo, até que um namoro entrou pela sua vida. E para sua sorte, Letícia também não era apegada as maravilhas das quatro linhas em um tapete gramado.

Tudo certo. Até que em seis meses , este dia chegou.

Sentado na comprida mesa de almoço de domingo, o recém-apresentado Luiz Augusto engolia entre garfadas sua timidez e receio pelo fatídico assunto. O almoço corria bem, com Luiz seguindo a voz materna que ecoava ordens de elogiar, agradecer e repetir o prato. Mas etiqueta nenhuma o salvaria do limbo:

- Então Luiz... Que time você torce?

A perguntou veio acompanhada dos olhares inquisidores de primos, irmãos e o grão-mestre daquele conclave: o sogro. Um homem de seus 50 e poucos anos, de vistoso bigode, careca e barriga acentuadas, com uma voz firme de quem não gosta de ser contrariado. A expressão de Letícia denunciava um misto de pena e presságio de vergonha alheia, enquanto revezava o olhar entre o pai e o namorado como quem acompanha uma acirrada partida de tênis.

Durante meses Luiz Augusto disfarçou o suor frio que corria sua espinha com as histórias do fanatismo de seu sogro pelo Sport Club Corinthians. Mas para isso, o jovem havia preparado uma carta na manga. E respondeu com a firmeza de quem em seguida beija o escudo do time.

- Sou XV de Piracicaba, desde criancinha.

Os Albuquerques se entrelhoaram, entre curiosos, surpresos e sadicamente um pouco decepcionados por ele não ser torcedor de nenhum dos times rivais. O grão-mestre externou a curiosidade da família:

- Mas... E aqui em São Paulo, qual você torce?

- XV de Piracicava também. Sou quinze onde for. – Um ator da Malhação seria mais convincente que ele nessa resposta. Mas passou. O plano estava dando certo.

O sogro soltou os talheres no prato. Luiz Augusto não sabia o que veria em seguida. O “tio” olhou sério para o canditado a genro, pensativo.

E abrindo um lento sorriso, começou a cantar com o mais legítimo dos sotaques caipiras:

- Cáxara di fórfi, carcanha de grilo. Suvaco de cobra, asa de barata! Garrafão de pinga, nhéque de portêra. Jaquetá de côro, já que tá que fique! 3 veiz 5 é...

Por um milagre da perspicácia, Luiz Augusto completou:

- Quinze!

O sogrão soltou uma risada alta.

- Esse hino é demais! Quem diria, um torcedor do XV. Sabe que admiro quem fica com o seu time, seja o tamanho ou aonde estiver. Não sei se a Letícia já te contou, mas eu já vi muito jogo do XV de Piracicaba. Meu querido vôzinho, que Deus o tenha, tinha um sítio por lá e era torcedor símbolo do Quinzão. Pediu para ser sepultado de uniforme e tudo.

Fez uma breve pausa, em silêncio respeitoso, e continou, todo animado:

- Vamo lá, essa você sabe Luizão. Com sua idade, você teve a sorte de ver o timaço de 95.

Com o pouco de coragem que lhe sobrava, Luiz foi all in na ousadia futebolística:

- Ô se lembro, tio. Time assim não se faz mais não. Uma seleção!

O sogro olhou para Luiz Augusto, cerrando os olhos. A fatia do abacaxi tremia no garfo do rapaz. Parecia que suspeitava de algo. Ou queria lembrar alguma coisa. Prosseguiu:

- Era Zé Wilson no gol, Jair, Tonhão, Ari e Danilinho fechando a lateral esquerda. O meio era só craque: Afonso, Curupira - volante dos bons - Chico Bahiano e Gera, o rei das faltas. Na frente tinha o matador do João Ramiro, junto do... Do...

Fez um sinal de fast foward com as mãos, pedindo para que Luiz completasse. O esforço do sogro para lembrar era tamanho que parecia que estava prestes a espirrar.

Luiz Augusto estava desesperado. Olhou para os lados, como que a procura de um milagre, de uma enciclopédia do futebol aberta na página certa. Só encontrou olhares desconfiados dos “primos”, de complacência da namorada e de impaciência da empregada, que esperava eles encerrarem o papo furado para perguntar quem queria mais café.

Em uma tentativa desesperada, buscou o recurso que sempre usou: mudar de assunto. E num impulso, a resposta saiu como uma súplica, quase como a confissão de que na verdade ele não sabia nada de futebol.

- O cafezinho!

Silêncio na mesa. Testas franzidas. Risadas seguradas, imitando um relinchar abafado de um cavalo. A resposta cortou imediatamente o “espirro”, fazendo que o sogro levantasse lentamente com o dedo em riste, apontando para o apavorado rapaz.

- Esse mesmo! - Disse isso estendendo o "e", como um cientista que grita "eureka" . - Craque. Que neguinho mais bom de bola, dava gosto de ver né não?

O almoço encerrou, com Luiz aprovado com um tapinha nas costas e um convite para ver um jogo do Timão, na feliz condição que ele não fizesse nenhum comentário contra o alvi-negro paulista.

Satisfeito, naquele dia Luiz Augusto voltou para casa cantarolando. A música? “Asa de barrata, carcanhá de grilou. Treis veiz cinco é quinze. Xis Vê, Xis Vê!”

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Namoro





















É fato. Textos românticos que começam com citação de dicionário são manjados, superficiais e mela cueca como o teclado de uma música do Bon Jovi.

Mas como eu tenho o mérito da ousadia, visto que dei um título desses a essas singelas linhas que tenho o prazer de ter seus olhos a segui-las, vejamos o que o Aurélio tem a dizer sobre “namoro”.


na.mo.ro

sm (der regressiva de namorar) 1 Ato de namorar. 2 Galanteio. 3 O namorado ou a namorada.

Certo. Realmente não foi a definição mais esclarecedora do mundo. Mas isso só me ajuda a tentar criar a minha versão sobre o que este título implica e significa na vida de uma pessoa.

Primeiro. Por que as pessoas namoram? Antigamente era claro. O namoro era simplesmente uma ante-sala para o casório. Aliás, nos tempos do meu e do seu bisavô o item número 2 da definição acima era de fato feito na sala, com a companhia vigilante da futura sogra em um sofá por perto.

Hoje, este objetivo ainda existe. Mas como algo distante, longe, deixado para pensar depois com uma conta bancária razoável ou a certeza que o matrimônio valha outra tentativa. A prioridade é ser feliz, e agora. Namora-se por que você simplesmente gosta de quem você escolheu depositar todo seu afeto.

Mas será que é tão simples assim?

Surge então uma inevitável pergunta: com a desobrigação do casamento em cada namoro e um vasto mundo de oportunidades para solteiros e solteiras se lambuzarem no mel da conquista, por que as pessoas ainda escolhem o doloroso risco de ter seu coração partido? Afinal, a vida em voo solo está aí, com todas as vantagens da liberdade de fazer e pegar quem bem entende.

O “affair” da revista Caras, o “ficante” da revista Capricho, o “fuck friend” da revista Nova só mostram o quão normal e corriqueiro o romance sem compromisso está. Uma fase de “curtir a vida” é bem vinda, e valorizada. Dá para viver muito bem saindo para onde quiser e sem número certo para boa parte dos nossos telefonemas.


Na teoria, é possível preencher toda nossa inerente carência por cafunés sob o cobertor e mensagens de texto lidas com um sorriso visitando tudo que nos apetece no cardápio. Satisfazendo-se com romances simples e apetitosos como um macarrão carbonara.

Na teoria. Pois na prática, quando chega a frechada do cupido ou o tiro acerta o Álvaro, entra em vigor um antigo ditado sertanejo: “cavalo selado não passa mai de uma veiz”. O recém contraído frio na barriga é acompanhado de um leve e intuitivo desespero, de algo que lhe diz que se você deixar esse potro passar vai ver embora com a poeira na estrada uma baita chance de ser feliz. Ou pelo menos viver assombrado com a dúvida do que seria um passeio a galope.

E esse imprevisível senso de urgência é o primeiro sintoma da paixão - a faísca que começa namoros. Coisa que depois, aos poucos, vai virando algo maior que nem eu, você, ou fogo que arde sem se ver consegue definir.


segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Um Lugar Chamado Itaim Bibi









José Luis era um rapaz do bem. Como eu, você e seu vizinho que um dia emprestou o abridor que tornou possível o macarrão com sardinhas. De gostos simples e luxos pontuais, batalhando pela dura ascensão profissional e por boas risadas ao lado de boas companhias.

E aquela tarde de quinta-feira iria lhe trazer a mais inusitada delas.

- Ô seu surdo! Vai fazer o que hoje?

Assustado pela cutucada insistente no seu ombro, Zezé tira os fones do ouvido e olha para seu chefe sem compreender a pergunta.

- Tô com convite para essa festinha aqui, coisa boa. Não vou poder ir. Quer?

Sem muito tempo para processar a pergunta, Zé sem querer acaba olhando os dentes do cavalo dado.

- Ahhh... Onde é?

Um pouco impaciente, o superior lhe responde com o tom blasé que o lugar pedia, antecedendo sua resposta com um suspiro.

- É um VIP para aquela Secret Elephant Lounge, sabe? É nova, só vai gente famosa, bonita, do mercado.

Zezé sabia de nome. E preço. O point dos chiques e famosos de São Paulo devia ter um preço com o sabor do sal que acompanha as tequilas e margueritas servidas por lá.

Pensou em uma pista repleta de caras com camisas pólo justas, com cavalos gigantes estampados no peito. Talvez um casaquinho amarrado no pescoço pra completar o look. Por milésimos de segundo, ensaiou mentalmente uma recusa educada. Por outro lado, pensou em meninas de calças justas, maquiadas, com perfumes que convidavam a beijos no cangote e drinks com gosto de hortelã. E arrematou sua elucubração com um “Por que não?”

- Ahh sei cara. Animal! Pô, quero sim. Brigadão!

- Beleza. Depois me conta como foi então. Só não vai fazer que nem na festa de fim de ano daqui, hein?

E sai rindo de sua piadinha. Zezé não entendeu muito bem o motivo. Ou melhor: não lembrava.

Gel no cabelo, camisa de manga dobrada, Ford Ka devidamente abastecido, 60 reais em notas de dez na carteira: nosso herói estava pronto para sua noite em voo solo.

O lugar preenchia suas expectativas. Era exatamente como tinha pensado. Abarrotado de cavalos gigantes estampados em listras e lindas garotas em saias justas. Pelas mesinhas, luxo, requinte e garrafas de Veuve Clicquot suando em baldes prateados. Ao fundo, uma pista de dança carpetada com um lustre indicando o centro com sua luz brilhante e levemente amarelada.

Zezé deu uma volta de reconhecimento de território e partiu para o elegante bar, com um balcão de madeira escura e com uma bela prateleira ao fundo, expondo o valor do seu carro em finas bebidas alcoólicas.

- Um uísque, por favor.

A dose veio caprichada. O líquido, de um dourado quase alaranjado, prenchia o copo alto até a boca. O primeiro gole desceu macio, acompanhado do charmoso tintilhar dos cubos de gelo contra a borda de vidro. O que sucedeu em seguida foi uma contagem regressiva para a loucura. O tempo voou na velocidade dos seus dez pedidos de “amigo, vê mais um”.

A partir desse momento, sua noite foi pontuada por cenas em flashes de teletransporte.

Se viu na pista de dança, conversando com uma morena. Dançando. Rindo para a dona da boca que sorria e mordia o carnudo lábio inferior. Beijando um pescoço perfumado. Errando a mira no mictório. Dançando com um formoso quadril encaixado nos seus. Sendo fotografado. Pressionando a morena a uma coluna, exercitando seus lábios imitando o gracioso nadar de uma lula no fundo do mar.

E por fim, de mãos dadas. Entrando no banco de trás de um carro branco com motorista, que rasgou pela avenida em direção a um fade-out.

Acordou com as sequelas de um atropelamento: boca amarga, garganta seca, têmporas latejantes.

Abriu os olhos lentamente. Os riscos de luz que entravam pela fresta da persiana doíam sua cabeça. Estava sozinho, de cueca nas suas cobertas e abafado pelo alcool que seus poros evaporaram pelo quarto.

Fechou os olhos e dormiu de conchinha com sua ressaca até tarde de segunda.

Caminhou pelo corredor do escritório distribuindo seu “bom dia” habitual, com o atraso de rotina e o cabelo desgrenhado de sempre. Mas algo de estranho vinha pelas respostas aos seus cumprimentos. Algo de “quero muito te perguntar uma coisa”, de que tem algo para dizer além do bom dia recíproco.

De fato, alguma coisa repousava no teclado do seu computador. Por um triste instante, pensou se tratar de um pedido de trabalho. Se aproximou do computador com um resignado suspiro. Mas era uma revista, dessas de fofoca. Na capa, um casal aos beijos em uma pista escura. Na parte inferior, uma tira de 4 fotos do mesmo casal em diversos momentos de pura sedução, finalizando com uma foto dos dois caminhando para um táxi.

E por cima de tantas imagens, uma legenda em letras garrafais:

“Megan Fox, em São Paulo, flagrada em beijos quentes com affair brasileiro.”

Lentamente, Zezé tirou os olhos da revista que segurava com as duas mãos. Uma roda havia formado a sua volta, perplexa. Curiosa. Atônita.

A foto não mentia: o beijado da capa era ele.

José Luis. Um rapaz do bem. Como eu, você e aquele cara que saiu na capa de todas as revistas, sites e publicações possíveis, cujo celular vibrava no bolso um número meio estranho.

sábado, 24 de julho de 2010

Não é Cutoco, é Carinho





















A casa quase vazia de uma família completa dorme. No aconchego do silêncio, os móveis estalam, como que se espreguiçando. Na sala de jantar, o pêndulo do relógio de corda nina o sono dos seus números e ponteiros. Alguns motores a diesel passam roncando pela rua, longe de atrapalhar o ronco nasalado de quem dorme.


No quarto de casal, a mãe dorme com seu caçula, de 4 anos. Uma viagem de trabalho do pai deu ao pequeno a responsabilidade de homem da casa, o colocando na cama dos pais sem o medo de um pesadelo ou de um barulho estranho lá fora.

O garoto tinha cabelos pretos, lisos, recortados no molde de uma tigela de mexer massa de bolo. Usava a roupa que para qualquer outra idade seria o cúmulo do ridículo: um pijama azul marinho, desses que o zíper corre pela barriga, com meias embutidas nas calças.

Dormiam tranquilos, ela com sua habitual almofada entre as pernas, ele com um travesseiro chamado Nana. Aproveitavam o descanso de um sono silencioso, tranquilo, de longas respirações carregadas de conforto.

Tudo confluía para uma ótima noite de sono, até um intruso aparecer. Mais precisamente, um pé.

Vestindo suas meias embutidas, o pé passa pelas pernas da sua mãe, como se fosse acender um fósforo nas suas canelas.

No mesmo instante, ela abre os olhos. Acorda bruscamente, assustada. Olha para o lado. Mas logo, a surpresa do gesto repentino é substituída pela ternura de ver seu filhote dormindo. Sorri, passa a mão nos seus cabelos. Encaixa a cabeça na fôrma já deixada no travesseiro, e empurra com um suspiro qualquer tentativa de seu corpo não deixá-la voltar a dormir.

Mas logo antes do sono chegar, o pé novamente risca sua canela. Abre os olhos e vira-se para o menino, que dorme profundo. Agora com um pouco menos de intensidade, o carinho maternal prevaleceu. Lentamente, volta seu corpo para posição original na cama e fecha os olhos.

O primeiro sonho estava pronto para passar. O sono com ajuda do edredom a envolvia e encaminhava seu corpo para um merecido descanso. Até outro pé passar por sua perna. De novo. O suspiro de ternura agora vira um sopro de impaciência:

- Filho, para de me cutucar. Poxa, terceira vez já.

O menino abre os olhos, denunciando que o sono não era tão profundo assim. Olha fundo para a mãe, pensando em cada palavra. E com firmeza, responde. Curto.

- Não é cutuco, mamãe... É carinho.

Desce da cama como quem desce de uma mureta alta, encostando primeiro os pés no chão com ajuda dos braços no colchão. Com um metro e 10 cm de orgulho, pega sua Nana e sai do quarto arrastando seu pijama de meias embutidas.

A mãe fica deitada, pensativa. Arrasada. Perdeu a paciência por um gesto de carinho. Tão inocente, tão puro... Tadinho. Um sentimento de culpa tomou seu corpo, que logo a tirou da cama.

Encontrou o menino no sofá com sua Nana e cobertor, fazendo força para fechar seus olhos. A cena era de apertar o coração. Agachou perto dele, passou as mãos pelo seus cabelos.

- Filho, vem dormir com a mamãe. Não fica aí...

Sem abrir os olhos, com a boca abafada por sua Nana, responde:

- Não era cutuco. Eu te fiz carinho e você falou que era cutuco. Era carinho.

Ela suspira, entre achando graça e com peso na consciência.

- Eu sei... Desculpa. Vem pra cama, vem.

- Não, quero ficar aqui.

O garoto estava decidido. O orgulho havia se tornado manha de criança. A mãe entra no jogo.

- Então tá bom. Você quer ficar mesmo aí?

- Quero. Vou dormir aqui.

A mãe volta ao quarto e se deita. Tinha feito o certo. Chamou ele duas vezes, insistir seria demais. Seria incentivar um comportamento errado, de criança mimada. Em breve ele voltaria para a cama e todos cutucos ou carinhos se resolveriam. Ficou deitada acordada, revesando os olhos entre o teto e a porta meia aberta. Passam longos minutos e nada de pézinhos caminharem para dentro do quarto.

Lentamente, o sono a envolve.

Dorme com uma sensação ruim no peito. De sacrifício por ter deixado o caçula sozinho no sofá, com um cobetor tão fino, por um motivo tão bobo.

Tudo confluía para mais uma noite de sono, até um intruso aparecer. Mais precisamente, um pé.

E logo em seguida, um sorriso.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Um Segredo









Pelo que vi de filmes e li de orelhas do famoso “O Segredo”, o que importa é querer muito alguma coisa. Mas muito. Querer mais que o Corinthians quer a Libertadores, querer mais que todos os outros times do Brasil que este dia nunca chegue para o bem geral do sarro. É o “querer” é o que tem a força nessa história toda. É só querer que o universo, tão bonito e misterioso como capas de CDs nos mostram, conspira a seu favor. Queira bastante que ele arranja o blind date entre a sorte e o mais preparado para conhecê-la: você.

A história toda se resume na Lei da Atração. Segundo o livro, você emite sinais para o breu do Universo pontilhado de estrelas, que eles atraem tudo de volta como um imã Acme, daqueles em forma de U que o Coyote usa em armadilhas para o Papa-Léguas.

O raciocínio da coisa é que basicamente tudo é uma questão de pensar positivo. Ou seja, ter confiança. Oras, desde que o mundo é mundo a confiança é o que rege o sucesso de toda e qualquer pessoa. Da entrevista de emprego ao restaurante japonês de sexta a noite, confiar no taco e evitar gagueiras assina contratos e contas para a noite se apagar à meia luz.

O fato é que acreditar muito em algo ou em si não é suficiente para colocar o Porsches em garagens ou aquela morena no seu banco do carona. Mas ajuda a contribuir para que este dia chegue, como tijolos assentados aos poucos em uma parede. Uma oportunidade de emprego bem aproveitada, um galanteio bem acertado - pequenos passos que encurtam os minutos para que o esperado dia que zera a contagem até o próximo.

Penso que o propósito do “O Segredo” se mostre eficaz para coisas mais pontuais, como querer o carrão ou o sorriso que te derrete emoldurado por longos cabelos lisos.

Mas e para Felicidade? Isso mesmo, o que todos procuram e querem mais que lasanha ou qualquer outro prato que venha fumegando enquanto se saliva. O fato que felicidade verdadeira, meu amigo, não é suficiente para um mero querer muito.

Felicidade é nada mais que o resultado azul e positivo da conta entre tudo que acontece na sua vida. Pensar um isolado “quero ser feliz” todas as manhãs da sua vida só tira seu foco de todos os pontos que você precisa para ter esse resultado.

Entre todos os itens que entram na conta da felicidade, o numeral “pessoas” tem peso fundamental. As pessoas que você divide frações de seu projeto de vida, sejam amigos ou amores, são determinantes para uma conta positiva.

E começa por cada um. Curtir sua companhia, rir de si mesmo, cantar no chuveiro repetindo besteiras ditas é o primeiro passo para a Lasanha que todos procuram. Dá sabor à presença das pessoas que você escolhe para estar perto. Abre a porta para quem chega trazer o azeite, a receita especial para o molho de tomate.

Tudo que é preciso ser feito é tentar ao máximo se cercar de pessoas que te fazem bem. O raciocínio é simples: se te provoca um sorriso quando vem qualquer lembrança, mantenha por perto. Mesmo que subtraia às vezes, a alegria indescritível de fechar o balanço no azul não é segredo para ninguém.

domingo, 25 de abril de 2010

Sou Casado e Amo Minha Esposa













De frente para o círculo desenhado no espelho de um vaporoso banheiro, o quarentão Dalton se prepara para mais uma noite.

Perfume, check com borrifadas estratégicas.

Camisa social sob medida, meia aberta. Check com um botão aberto novamente.

Barba propositalmente por fazer. Check passando a mão no rosto como num legítimo anúncio da Gillete.

E por último e mais importante, a aliança. Check com uma baforada no dedo anular, na tentativa de fazer cintilar ainda mais o dourado do mini bambolê.

Avisou a mãe que estava de saída e caiu na noite - ou na night, quando a trabalho no Rio.

Há 12 anos que Dalton era um fiel marido e dedicado pai de uma família planejada nos mínimos detalhes para parecer existir. Seu matrimônio era tão bem construído que ele exalava a confiança de um homem bem casado. E as mulheres farejavam.

Na sua mesa de trabalho, um belo porta-retrato emoldurava Juninho, o seu moleque de 11 anos fã de futebol que ele encontrou numa rápida busca no Getty Images. “Vai dar trabalho esse menino”, dizia o paizão orgulhoso. No fundo de tela, Aninha. A princesa do papai. Recortada e escaneada de um anúncio de sabão em pó.

Nos intervalos do cafezinho, arrancava suspiros femininos detalhando o quanto se apaixonava toda dia por sua esposa. Do quanto gostava do seu rosto amassado logo cedo. E como há 12 anos o seu despertador era cobri-la de beijinhos.

“- A meta é mais difícil que a desse mês: cobrir 100% do seu corpo, só de beijos”

E ria com a roda de mulheres, sustentando o olhar por pouco mais de 3 segundos com a nova contratada do departamento financeiro.

Obviamente, era um sucesso. Romântico, marido dedicado, bem sucedido. O perfil de homem que abarrota a caixa de entrada de Santo Antônio.

Com seu terno bem cortado e aliança bem colocada, enlouquecia as mulheres com o bônus de ser inalcançável.

Afinal, por trás dessa imagem Dalton era um sedutor. Um sedutor discreto. Com olhares firmes, mas rápidos. Sem o desespero imediatista do solteiro, contava com a tranquilidade de um homem casado, bem resolvido. E com a descrição de um mineiro, “fazia a rapa na firma”- palavras de Josias, seu porteiro e único confidente.

Nada de carros importados ou passeios extravagantes, Dalton impressionava pela aliança. Aliás, o primeiro adereço a colocar no seu Renault Scenic vinho foi um adesivo de “bebê a bordo” no vidro traseiro.

Driblava qualquer princípio de comprometimento com álibis e desculpas para todos os momentos:

“- Poxa... Sábado eu não posso, minha querida. O Juninho tem a final e eu fiquei de levar todo o time campeão no McDonalds”

“- Hoje a noite o Beto e a Sônia vão jantar em casa. Soube agora, não vai ter como escapar. Me desculpe, meu bem.”

“- Acredita que a Regina quer que eu viaje para a casa da minha sogra, bem no carnaval?”

Até que o inevitável aconteceu. Dalton se apaixonou. E o pior (ou melhor): perdidamente. Cristina não pedia para acabar seu casamento, cobrava exclusividade ou ligava de madrugada contando “toda a verdade” para sua já sonolenta mãe. Para ela, tudo que lhe bastava era seu amor.

Depois de anos sustentando uma mentira por amores pueris, por simplesmente pontuar em um placar, Dalton se viu de peito aberto por estar com as mãos ao alto, completamente rendido pelo mais sincero dos afetos.

Dalton não teve outra escolha. Se encheu de coragem e resolveu tudo de uma vez por todas a farsa que era seu casamento.

Depois de meses de um divórcio arrasador, conseguiu se separar. Não queria ver Regina para não lembrar, pensou até em se mudar. Um lugar qualquer que não exista o pensamento em seus queridos filhos.

E assim, se mudou para a casa de Cristina.

"- Sabe Tina, fiquei ainda mais triste - e estupefato - quando soube que Regina já tinha um caso há anos com um empresário japonês, que conheceu nas aulas de pilates."

Se mudariam para Tóquio em semanas. E decepcionado, mas feliz por ter encontrado um novo amor em um momento tão difícil da sua vida, nem com a guarda do porta-retrato ele ficou.